Alessandra Leão

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em 16 de março de 2020

A cantora e percussionista pernambucana Alessandra Leão sempre foi ligada ao sagrado. Estudou em colégios católicos, frequentava missas e tinha predileção pela “hora da música”. Foi kardecista e ouvia da sua “Vovó Bessinha” trechos de livros psicografados. Na adolescência, visitou pela primeira vez a Zona da Mata Norte pernambucana e se encantou com os tambores e o terreiro de rua. Depois disso, ela foi Comadre Fulozinha, nome da banda que ajudou a fundar, e, com a qual voou pelo mundo nas asas das cantigas nordestinas e no embalo da explosão do cenário pop pernambucano na década de noventa.

Desde então foram muitos projetos envolvendo shows, álbuns autorais, trilhas para teatro, trilogia de EPs e até um curso onde ensinava outros artistas a lidarem com editais e leis de incentivo. Radicada em São Paulo desde 2015, em 2019, com o álbum Macumbas e Catimbós, foi indicada ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Raiz em Língua Portuguesa. Saboreando e servindo chá com gengibre, Alessandra recebeu a LABO Plural Singular na sua casa para um bate papo.

Enquanto nos acomodávamos, observamos uma quantidade enorme de plantas na varanda…

Cássio e Mariana Você tem uma relação íntima com cada uma dessas plantas?

Alessandra Leão Eu sei a história de cada uma – de onde vieram, pra que servem e quem me deu. A grande maioria eu que plantei, mas gosto de ganhar plantas também. É como se a pessoa estivesse plantada ali junto. Se tem uma que tá um pouco mais chateada, eu mudo de lugar, enfim… mas uma coisa que eu faço sempre é, se eu for pegar, tipo usar a planta pra alguma coisa, eu sempre peço “licença”; seja pra podar, fazer um chá ou um banho, eu sempre peço “licença”.

Cássio e Mariana Então você sabe em que estado cada uma delas está…

Alessandra Leão Sim. Eu gosto de jardim meio selvagem, então quase todos os vasos têm mais de uma planta. Gosto de como as coisas vão se misturando, como uma coisa colabora ou não com a outra, mas eu não tenho “essa técnica” de jardinagem, esse conhecimento. Eu vou muito no instinto, mas trato elas “meio iguais”. Algumas, quando eu vejo que estão mais chateadas, eu vou mudando de lugar e elas se reacomodam ou não. Tem horas que eu desisto e digo “agora você está por sua conta”.

Cássio e Mariana Você disse que usa as plantas no seu show…

Alessandra Leão No show do “Macumbas e Catimbós”…

Cássio e Mariana Queria que você falasse um pouco sobre isso e, também, se o convívio com plantas faz parte da sua essência. Na infância, você transitava por lugares onde havia muitas plantas?

Alessandra Leão A minha avó tinha um sítio e a gente ia muito pra lá. Eu lembro de andar com a minha vó pelo sítio. Ela passava, pegava uma folhinha, amassava e me dava: “quem é essa?” – eu respondia: “é uma arruda” e ela: “tá certo!”. Pegava outra: “e essa?” – e eu: “acerola”. Isso eu tenho ainda. Às vezes eu tô andando num lugar, passo e macero a folhinha assim. Depois eu sempre morei em casa ou apartamento com jardim, mas não tinha essa mesma relação e não eram cheios de plantas. Tinha isso com a minha avó, no sítio. Agora que eu tenho a minha casa, comecei a ter mais plantas. Comecei a achar importante ter mesmo.

Cássio e Mariana Sobre usá-las nos shows, existe uma escolha prévia de quais plantas e por quais motivos usar?

Alessandra Leão Tem. Primeiro porque nas macumbas e nos catimbós, de maneira geral, nada é sem motivo, né? Nada é aleatório. Nenhuma planta está apenas porque “achei bonita e botei”. Toda planta tem uma função, né? Toda planta tem uma energia que tá ligada a alguma coisa para além da beleza, e no processo do disco, a Juliana Godói, que faz a direção de arte, assina a capa do disco, assina a cenografia do show, ela também vem fazendo um estudo sobre plantas há algum tempo, tanto das propriedades das plantas como também esteticamente, enfim, ela vem de uma relação muito parecida com a minha com plantas, e aí muita coisa foi sendo intuída mesmo, ou de plantas que foram mais presentes, sei lá… uma música que eu fiz que eu estava podando uma samambaia na casa dela, aí fiz a música de Oxóssi. Samambaia é a folha de Oxóssi.

Então ela foi, pelos estudos e pela intuição, se deixando guiar de que plantas deveriam estar presentes, tanto na composição estética das fotos, na direção de arte das fotos, como também na capa do disco. Cada etapa (da produção) desse disco, eu levei pro terreiro e consultei. A capa foi uma delas, e aí, nessa conversa lá, teve uma questão que foi levantada e a gente entendeu que faltavam elementos. A fala principal “dele” era assim: “não tem macumba sem planta”. Nada tá acima das plantas na macumba. Nem no catimbó. Daí essa ideia dela de usar, a princípio, digitalmente, uma colagem de várias plantas. Ao longo do processo (de produção), tinha três plantas que foram muito presentes: a guiné, a lavanda e a samambaia. A gente fotografou a capa, imprimiu e sobrepôs a planta mesmo. Um galho de cada.

Todo conceito do disco trabalha com essa ideia de ter muitas camadas. Do que não está revelado e também do que não está tão exposto. Macumba tem isso: tem o que você acessa no primeiro olhar, e tem o que você vai acessando quando você vai se permitindo também a entrar, e eu acho que as plantas têm isso também, têm o segredo delas, têm como é que elas funcionam, né? Quando é remédio e quando é veneno. A mesma planta pode servir para as duas coisas.

Cássio e Mariana Em 2006 nasceu o seu primeiro trabalho autoral, o álbum “Brinquedo de tambor”. Quando a Alessandra se deu conta de que tinha nascido artista?

Alessandra Leão Boa pergunta… bem, eu sempre quis trabalhar com arte. Passada a fase de querer fazer medicina, na adolescência, eu dançava. Acho que era a primeira ideia do que eu queria fazer. Mas também não era balé clássico, nem era contemporânea, então eu achava que não tinha uma outra. Na época, não me parecia existir outro caminho na dança. Daí eu comecei a estudar teatro, adolescente também, estudei um tempinho e aí decidi: “vou fazer cênicas! É isso!”. E nesse mesmo período eu comecei a tocar no carnaval, no “boizinho”. Em Pernambuco tem uma brincadeira de carnaval que se chama “boizinho”, que a gente sai tocando maracatu de baque solto. Foi quando eu comecei a tocar mesmo. Mas achava que isso tudo ia servir ao teatro. A música ia servir ao teatro. A dança ia servir ao teatro. Aí achei que não era pra eu ser atriz também. “Quero escrever e quero dirigir, quero produzir, quero fazer outras coisas”. Mas quando eu comecei a tocar, na mesma época, tudo rapidão assim, veio a Comadre Fulozinha. Eu, Karina Buhr, Isaar (França), Renata Mattar e Telma César. Nós cinco fundamos a Comadre Fulozinha em 1997. Logo quando a gente começou, tinha um movimento acontecendo que fez a gente rodar muito, a gente trabalhou um bocado. E aí a música me tomou. Eu achei que era isso mesmo pra fazer. Num período eu parei de tocar, fiquei tocando bem pouco, fui trabalhar com outra coisa, um negócio mais formal. Fui trabalhar de administradora de um centro médico. Fiquei três anos, depois voltei, aí entendi. Nesse período, eu acho, que eu tive certeza. Eu tive a dimensão real do que acontece comigo, com minha alma, com o meu corpo quando eu não tô diariamente trabalhando com isso.

Cássio e Mariana Nesse processo de descoberta da arte, ser mulher, na sociedade que a gente vive, te ajudou, te atrapalhou, ou foi indiferente?

Alessandra Leão Bom… primeiro “é o que é”. Eu só tenho essa perspectiva, né? Não tenho outro olhar. No comecinho mesmo, anos noventa ainda, tinha uma série de dificuldades maiores. Era mais difícil tocar percussão, por exemplo. Principalmente porque a minha formação musical vem das tradições de Pernambuco, sobretudo. Cavalo marinho, maracatu de baque solto… foram os lugares aonde eu aprendi a tocar mesmo. Essa lógica de terreiro da rua é que me leva para os terreiros de candomblé. Eu conheci o tambor, e foi o tambor, na verdade, que me levou pro terreiro. Era bem mais complicado nesse começo. Tinha bem menos mulheres tocando, tinha uma resistência maior. Situações de tirar mesmo o instrumento da mão. “Mulher não pode tocar tambor de mão”, “mulher não pode tocar dentro do terreiro”, “mulher não pode tocar dentro do ritual”. Isso era muito forte mesmo. Isso era dito verbalmente. E de outra maneira, tem o exótico, né? Quando você tá tocando, aí vem todo mundo, junta gente pra ver, parece que você é um bicho de zoológico assim… “Olha, ela sabe tocar! Que coisa incrível que ela toca! Nossa, como ela consegue? Como isso é possível?”.

Cássio e Mariana E hoje?

Alessandra Leão De várias maneiras, melhorou. Tem muito mais mulher tocando. Hoje me parece quase impensável tirar o instrumento da mão de uma pessoa. Mas ainda junta gente pra ver. E não só nas tradições, por que isso também é uma imagem que a gente tem de que as tradições são mais arcaicas, que as pessoas ligadas às brincadeiras populares são mais arcaicas, e isso não é verdade. Eu tenho amigos músicos meus, contemporâneos, aqui de São Paulo, do Rio de Janeiro, de qualquer lugar, que, de vez em quando, soltam umas falas que eu digo “companheiro, faça não, fala isso mais não. Cabe não, mais não”. De dizer “agora é a hora das mulheres tocarem”, “esse é o momento das mulheres no show”, ou então “nossa, a mulherada tá tocando bem, né?!”. Talvez entre de forma mais velada, porque o machismo é estrutural, né? O racismo é. Então, às vezes, elas saem de uma forma que não passa pelo racional.

Cássio e Mariana As leis de incentivo à cultura estão bastante presentes em sua produção artística. A estrutura política atual representa um risco à produção de novos trabalhos independentes?

Alessandra Leão Boa essa pergunta depois de ontem (referindo-se ao pronunciamento do então secretário de cultura Roberto Alvim, no qual ele parafraseou o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, impondo à produção artística uma estética ultra-conservadora). Eu acho que o pronunciamento que a gente ouviu do então Secretário Roberto Alvim está bem dentro desse limite absurdo do que não pode. Não pode o discurso nazista. Eu acho que as leis de incentivo vieram, tiveram uma evolução fundamental para a produção do país. Quando eu comecei a trabalhar com música, na época da Comadre Fulozinha, elas não estavam ainda estruturadas. A lei Rouanet era muito centrada no eixo Rio / São Paulo, pouco se chegava pro Nordeste. Com o passar dos anos, a própria sociedade vai também se organizando e cobrando. Porque os governos são reflexos da gente, a gente tá botando eles lá. É o que a gente tá permitindo ou não que aconteça. Muita coisa da produção artística não obedece à lógica comercial, então as leis de incentivo tiveram que passar a existir e evoluir a ponto de existirem fundos, e não só mecenato. O mecenato obedece muito mais à lógica de mercado, de patrocínio, de uso de marca, de tudo isso. Hoje em dia, sobretudo nesse último ano, houve um desmonte da estrutura. Se você pega o ministério da cultura que vinha fazendo, sei lá, pontos de cultura aqui… Quão revolucionário foi pra esse país os pontos de cultura? Quantos grupos tradicionais puderam passar a ter uma sede, a se organizar, a entender melhor? Quantos se endividaram também? Mas isso é uma coisa pra ser corrigida, não pra ser cancelada. “Cancela tudo porque isso não funcionou”. O que é que não funcionou? A gente vem num processo sistemático de desmontar algumas coisas, de desfazer o que foi feito. E a gente sabe o porquê. Sabe a força que a arte tem.

Cássio e Mariana Você acha que, de certa forma, isso não é mais uma traquitana do governo pra favorecer a indústria?

Alessandra Leão Eu acho que tem essa camada de ser a favor da indústria, de um pensamento mais planejado, digamos assim, como tem mais claramente em outros setores como o agronegócio. Pra arte eu acho que tem outras camadas. Do quão inquietante ela pode ser, do quão aglutinadora pode ser. Do quão fortalecedora socialmente é. Uma das coisas que mais se faz com as tradições, com as culturas tradicionais, é achar que é muito naife, que é muito ingênuo. Não é. Quem acha isso não entendeu foi nada. Não tá entendendo nada. Porque isso é uma forma de organização popular muito potente. A música, a dança, a brincadeira, ela é uma das camadas do que está acontecendo. Um grupo de pessoas se mobilizar, bordar, passar meses bordando, cortando fita, montando, ensaiando, estudando…é uma tecnologia. São muitas tecnologias aí envolvidas. Quando você vai tirando o véu da ignorância, você vai vendo um mundo de uma potência absurda.

Cássio e Mariana Alê, falando um pouco sobre a Comadre Fulozinha, na época vocês faziam mais coco, baião, ciranda. A sua relação com a música de terreiro já vinha sendo maturada?

Alessandra Leão Já. Vim de uma família kardecista, mas de formação católica, estudei em colégio católico, então eu fui pra muita missa, cantei em missa. Sempre me interessou o lugar do sagrado. A música, na missa, sempre foi o momento mais interessante. E numa fase de não acreditar mais em Deus, foi muito a partir do Mestre Ambrósio que eu fui pra Mata Norte (região pernambucana onde há muitas manifestações culturais como maracatu, cavalo marinho, a dança do coco, o mamulengo e a ciranda, além de Terreiros de rua).

Cássio e Mariana Aí já começou a ser concebido (o álbum) Macumbas e Catimbós?

Alessandra Leão Macumbas e Catimbós é um disco que eu acho que levei 40 anos mesmo pra fazer. Se eu fizesse ele agora, ele seria outro disco. Cada coisa que você cria é o retrato do que você é naquele momento. De quem você é, do que é que você escuta, do que você lê, de quem você conversou…

Cássio e Mariana É um álbum religioso?

Alessandra Leão Ele é um álbum de música brasileira. Porque essa música de terreiro, ela é para além da religião. Ela estrutura a música brasileira. Ritmicamente, melodicamente. Quando eu fui pra Mata Norte, nesse período, a relação, pra mim, do sagrado, ficou no que acontece no terreiro da rua. É um sagrado ali. Tem uma religiosidade. Não precisa nem chamar de Deus, mas tem algo que é sagrado ali. Tem vários rituais acontecendo pra botar o maracatu, o coco, o cavalo marinho na rua. Ninguém sai pra rua à toa. Quando eu conheci o Ilú (tambor usado em rituais), vendo o Maurício Badé tocar no Mestre Ambrósio, esse tambor me interessou. Esse tambor é que me leva pro terreiro. Porque esse é o tambor que a gente usa nos terreiros de Pernambuco. De candomblé, de Jurema. É o primeiro instrumento que eu toco. E aí quando eu comecei a frequentar terreiro, eu falei: “opa, faz muito sentido pra mim”. Até que, há cinco anos, já morando aqui em São Paulo, eu entrei na Umbanda e hoje sou umbandista.

Cássio e Mariana Na ocasião do lançamento do álbum, que aconteceu no auditório do Ibirapuera, você deu a seguinte declaração: “Ele foi feito por muitas mãos e de forma muito generosa”. Quais foram essas mãos?

Alessandra Leão Macumbas e Catimbós é o primeiro disco que eu faço sem nenhum apoio de lei de incentivo. Achei que era pra ser feito assim mesmo. Mas ele só pôde ser financiado por mim porque muita gente se dispôs a trabalhar e a se fazer presente nele de várias maneiras. Pra fazer esse disco, eu pedi autorização a quem precisava me autorizar a fazer. Lá no terreiro pedi autorização aos guias da casa, aos meus guias, se poderia fazer e como tocar essas músicas que são de dentro do ritual, músicas que são de “trabalho”. Como que eu toco elas fora? O que é que eu mudo em mim pra tocar a mesma música? Essa é a primeira generosidade. Essa autorização. “Não só pode fazer, como vamos fazer juntos”. E aí tem uma oração que a gente faz lá no terreiro, pra abrir e fechar os trabalhos, que eu gosto muito, e que me guia muito na vida, mas que me guia muito nesse processo especificamente, que é: “estamos nos reunindo para fazermos juntos aquilo que eu não posso fazer sozinho. Pra nos fortalecer, fazer e acreditar em um mundo melhor pra viver e amar”. Acredito nisso pra vida de uma forma muito ampla. E pra esse disco, eu levei isso mais afinco (sic), assim. Inclusive de entender quem era pra estar nesse disco. Quem são as pessoas que teriam que estar…

Cada um foi entendendo o que é pra fazer, foi se permitindo intuir, foi se permitindo fazer junto, foi se permitindo um lugar de não estar à frente do que é. Tem algo que está sempre à frente nesse trabalho. As macumbas estão sempre à frente. Os catimbós estão sempre à frente. É sobre isso que se trata.

Cássio e Mariana Além do Badé… Lia de Itamaracá, Mateus Aleluia, Mestre Sapopemba, Terreiro Recanto Quiguiriçá, Livia Mattos, Lenna Bahule, Manu Maltez e Isaar… são muitas mãos. Embora você tenha dito que o álbum não tem a intenção de ser uma Gira, você reuniu uma Curimba, não? Em que aspecto o álbum é, ou não, uma Gira?

Alessandra Leão Eu sempre falo em todo show que esse show não é uma Gira, nem é um Xirê, que a gente está ali cantando e tocando de um outro jeito. Quando eu falo que ele não é um álbum de música religiosa, não quer dizer que ele não tenha isso, que não seja sobre isso. Cada lugar do Brasil tem um tipo de macumba diferente. Ou pela formação a partir das diásporas, ou encontrando quem já estava no lugar, enfim, por muitas questões. Eu optei por fazer esse recorte, a partir da maneira de tocar que a gente faz em Pernambuco, tanto no Candomblé ou Xangô, como a gente chama, quanto na Jurema. A música do terreiro, dentro dos rituais, ela tem muitas regras, e pro disco, eu quis nos dar liberdade, inclusive de dizer: “não é um disco de música religiosa”, então eu posso usar essa imagem que eu uso muito pro disco, de que nós estamos numa encruzilhada. E encruzilhada é esse lugar de possibilidades, né? Então eu não queria que fosse um registro etnográfico do que é do terreiro. Nesse sentido, ele não é uma Gira mesmo. Nesse sentido, ele não é um ritual.

Cássio e Mariana No ano passado, ao lado de álbuns de grandes nomes, como Hermeto Pascoal e Elba Ramalho, Macumbas e Catimbós foi indicado ao Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de Música Raiz em Língua Portuguesa. A indicação te surpreendeu?

Alessandra Leão Eu nunca faço nada pensando em prêmio. Esse ano, também, talvez por ter tido tantas indicações para além do Grammy, eu tenha começado a entender melhor qual o sentido disso, mas acho ainda estranho que uma música seja considerada melhor do que a outra. Porque gosto de pensar a beleza da arte no que é absolutamente individual. Mas quando a gente tava produzindo o disco, sobretudo nessa parte de captação, nessa parte mais técnica mesmo de estúdio, eu brincava muito, falei várias vezes dentro do estúdio… como o Cacá Lima, que é o técnico responsável pelo disco, já ganhou, acho que, uns dois “Grammys” como engenheiro de som, eu falei várias vezes pra ele: “Cacá, eu quero Grammy! Eu quero Grammy pra esse disco! Quero som pra ganhar Grammy!”. Eu nem sabia que eles tinham inscrito (o álbum). Eu tava em casa, numa reunião de produção, e na hora o Caio me mandou uma mensagem: “Bom dia pra você que foi indicada ao Grammy”. Aí eu olhei e falei “eita, o Caio foi indicado ao Grammy! Que massa… Caio foi indicado ao Grammy? Mas é ‘indicada’… quem foi indicada ao Grammy?”. Aí ele me mandou o print da imagem com a indicação. Macumba é um negócio incrível porque ela chega antes de você, né? Acho muito bonito e simbólico ter sido indicada a esse prêmio, com várias divergências que tenho a prêmios, com “esse” disco. É um disco de macumba e catimbó, ele não é outra coisa. Não tem maquiagem, é isso. Entendo que a função de um prêmio não é dizer se você é melhor ou não, mas o prêmio serve pra reverberar o que você tá fazendo. Muita gente passou a olhar diferente pro meu trabalho, porque tem uma indicação. “Agora eu vou ouvir, agora o Grammy disse que é legal”.

Cássio e Mariana Alê, a gente gostaria de te agradecer e desejar muito axé nos novos projetos e nesse disco. Agora a última pergunta: O que é o Brasil pra você?

Alessandra Leão Tem mais meia hora (risos)? Acho que eu vou me concentrar na parte boa, no que nós somos de melhor mesmo, tenho tentado me focar nisso, porque acho que a gente tá num dia a dia tão duro, tão tenebroso de várias maneiras, né? Tá todo mundo tão doente de várias maneiras também, e eu tenho tentado me pegar onde é que a gente é massa, onde é que a gente é foda sabe? Onde é que a gente se levanta e nisso a cultura popular me ensina muito todo dia, essa música me ensina muito todo dia. A força que dá quando você tá junto e canta e toca, quando a gente se encontra e acende sabe, quando a gente se encontra e melhora, quando a gente se encontra mesmo, quando essa força… é direto a conversa, para pra ouvir o outro, para pra ver, para pra descobrir o que o outro tem de mais bonito assim… eu acho que isso diz de quem somos, da melhor parte do que somos, então eu tenho tentado pensar no Brasil a partir disso, a partir do que somos de melhor mesmo, cotidianamente, porque senão a gente não vai dar conta, a gente vai sucumbir.

Créditos

Entrevista por Mariana Ferrari é advogada, musicista e ativista. & Cássio Calazans é produtor musical e audiovisual, comunicador e roterista.

Filme por Luan Cardoso é o responsável pela criação da produtora de cinema Quixó Produções fundada em 2010. Atualmente, encontra-se em processo de pós-produção de seus dois primeiros longas-metragens: a Ficção Ménage e o documentário Summer Long, sobre a gravação do disco da banda Mombojó com a francesa Laetitia Sadier.

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