aRtemporal #1

Música #dubrasil

em 15 de janeiro de 2021

Sonic Junior e Guilherme Folco se juntam a Davi Índio para lançarem o single “Quantas Vidas”

Ano novo, vida nova e mesmo com pandemia velha, inicio 2021 com meu primeiro artigo na LABO Plural Singular, feliz por poder trazer um pouquinho do que está acontecendo na cena independente, mas não sem antes agradecer muito a Cláudia Ponticelli e a todos da revista pelo convite e pelo orgulho que sinto. É fato que, nesse clima de isolamento social imposto pelo coronavírus, os que vivem de sua arte estão passando momentos difíceis, mas há sempre o “algo a mais” na alma destas pessoas que não as deixam parar de produzir. Isso é bom e mostra que, apesar de vivermos em um país em que muitos insistem em desqualificar a produção artística, colocando-a sempre a serviço da pasteurização de mentes com pobreza criativa e temas alienantes, um sopro forte e corajoso de nossos inquietantes artistas persiste, ainda que por trás de máscaras anti-proliferação do vírus e afastados de uma importante matéria prima: o contato próximo com pessoas. Para abrir este espaço trago alguns destes artistas que resolveram se juntar, cada um em sua casa, em cidades de estados diferentes, compartilhando suas influências musicais e vivências nesse brasilzão, para lançarem o single “Quantas Vidas”.  

Desta vida, de outra vida, de várias vidas

Esses são daqueles que não ficam parados, em todos os universos paralelos que possam existir, nem no passado, nem no futuro. Para chegarem aos tempos atuais com tanto entusiasmo e bagagem, Sonic Junior, Davi Índio e Guilherme Folco iniciaram seus caminhos musicais no milênio passado com histórias bem diferentes, mas que se complementam, como é comum acontecer entre artistas comprometidos com o espírito de criação, propagação e transformação de realidades, através deste necessário ofício.

Foto: Tati Azevedo – Sonic Junior

Sonic Junior, ainda adolescente, pilotou a bateria da banda alagoana Living in the Shit, com pegada mangue beat recifence dos anos 90. Vale muito a pena conferir! Esta banda ajudou a transformar a cena musical de Maceió.

Living in the Shit

Na época, por influências dos DJs que estavam produzindo novidades ao redor do planeta ou do Groovebox recém adquirido, Sonic Junior, nominado em sua certidão de nascimento de José Carlos Duarte Barros Júnior, entrou firme na dimensão da música eletrônica à procura do que chamou de “som eletrônico orgânico”, juntando instrumentos acústicos – djembê, bateria, piano – e também elétricos – guitarra, baixo – às batidas digitais, para trazer potência sonora e dança em suas apresentações. Sonic Junior inicia o ano de 2021 celebrando mais de 20 anos de carreira na música com vários álbuns gravados e premiações, participações em coletâneas e trilhas de filmes – a exemplo de “Deus é Brasileiro” de Cacá Diegues – e participações em festivais nacionais e internacionais como o Festival Roskilde, na Dinamarca, e o festival Afro Latino, na Bélgica.

Foto divulgação – Guilherme Folco

Guilherme Folco é paulistano, morador de Alto Paraíso de Goiás na Chapada dos Veadeiros. Em seu projeto solo – o “Multisambofônico” – trabalha instrumentos que vão do cavaquinho ao beat-box, unidos por um pedal de loop, para propor novos caminhos para as suas músicas, brincando com ritmos como afoxé, maracatu, samba, frevo e também hip hop, lounge e dub. Artista circense, não deixa essa habilidade de lado em suas apresentações, provocando interesse da plateia quando improvisa no saxofone em um monociclo ou faz malabarismos performáticos. Munido de letras “político-poéticas” que valorizam a diversidade e tolerância, compõe junto com seu arsenal de instrumentos diversos o que chama de “orquestra de um homem só”. Tudo ao vivo, em tempo real, em constante mutação.

Foto divulgação – Davi Índio

Davi Índio, entusiasta do MPC, é baixista, compositor e experiente produtor musical, que sempre prestigiou “dar vez” para músicos independentes nas gravações em seu estúdio, o Casa Azul em São Paulo. Em suas andanças, já tocou com Di Melo, Max de Castro, Marcelo Bonfá, Fernandinho Beatbox, Mariene de Castro e outros. Com “Quantas Vidas”, abre novos caminhos em busca de pluralidade sonora e de ideias que trazem, na junção de artistas e amigos músicos, uma outra maneira de interpretar a vida e fazer música. Com ele e com o Adauto Domingues Jr. (o Mang), tenho orgulho de dividir o trabalho no Índio Rock Selo para “fortalecer a cena independente”, como eles mesmos dizem.

Quantas Vidas

Arte: Jeff Corsi

O single “Quantas Vidas”, na voz de Sonic Junior, lançado dia 13 de janeiro, pelo Índio Rock Selo, foi composto por Davi Índio com letra de Guilherme Folco, escrito com base na frase que surgiu em suas reflexões sobre o teor da vida e que dá alma ao refrão: “Quantas vidas já vivemos dentro desta mesma vida?”. A pergunta lhe trouxe temas sobre as transformações que vivemos diariamente, sobre o que lembramos e sonhamos “desta vida, de outra vida, de várias vidas”. Sonic Junior desenhou a linha melódica e a interpretou como uma tranquila conversa com o ouvinte, com um refrão que nos faz embalar com ele na música. Convidados por Davi Índio, que tocou o baixo e o MPC, Sonic Junior foi acompanhado na gravação por músicos que misturaram seus instrumentos com o suingue brasileiro: Vinícius Chagas tocou a flauta e o sax, Emílio Mizão a guitarra, Gabriel Gaiardo o teclado e China Cunha a zabumba.

Lyric vídeo por Guilherme Folco

Davi Índio produziu o single, no estúdio Casa Azul em São Paulo, e a masterização e mixagem ficou por conta de Ricardo Prado, no estúdio Canto da Coruja, em Piracaia. Perguntei aos 3 sobre como utilizar o aprendizado e a criatividade para ilustrar nosso presente e para a construção de novos futuros, nestes tempos de isolamento social. Confira o que responderam, bom som e boas reflexões!!!  

Alexandre Marques O refrão de “Quantas vidas” é marcado por uma pergunta: “Quantas vidas já vivemos dentro desta mesma vida?”. O que esta pergunta leva vocês a refletirem?  

Davi Índio Pra mim, acho que esse lance do Quantas Vidas tem muito a ver com a conexão que o ser humano tem com o outro. Não só nessa questão espiritual de que vivemos várias vezes, mas dentro de um contexto de que cada ação que a gente tem interfere muito na vida de outras pessoas e a gente não percebe. Isso ficou claro pra mim, por exemplo, nessa pandemia. Só de respirar perto de uma pessoa você afeta ou não a vida dela, ou a do parente dela, ou de outras pessoas… é a conexão, todas as coisas estão interligadas e a gente gira junto dentro desse universo imenso.  

Sonic Junior Esse refrão me faz pensar na minha evolução como pessoa. Como estamos em movimento e em constante mudança. O tempo passou e não somos mais os mesmos, a cada mudança uma nova vida.  

Guilherem Folco Leva a gente a refletir sobre quantas profissões, quantos amores, quantas vidas a gente quer viver nessa vida que é só uma, a gente só tem uma e temos que desfrutá-la da melhor forma… mas nos leva também a refletir nas voltas que o mundo dá, na responsabilidade de seguirmos sempre com caráter e verdade, porque um dia, lá na frente, podemos nos encontrar com pessoas e circunstâncias sobre nós mesmos, de um passado que a gente nem se lembra e quando vai ver: sim, era a gente mesmo. Por isso, minha mãe, Dona Valentina, sempre dizia: quem mente, tem que ter boa memória, pra ficar sempre lembrando a mentira que foi contada. Por isso que não podemos mentir, pra não cair em contradições…rsrs  

Alexandre Marques A música nos faz pensar sobre uma existência atemporal, mas que mostra, apesar da distância, uma fina sintonia entre vocês três e os músicos convidados, que só estando muito conectados ao presente para funcionar tão bem. O que mudou em seus processos criativos nestes tempos de isolamento social e o que acreditam que levarão como aprendizado para o mais que aguardado mundo pós-pandemia?  

Davi Índio Nessa pandemia a gente fica muito isolado, muito tempo trancado, sozinho, então a inspiração vem das coisas mais sutis. Compor também é um jeito de fugir disso, dessa monotonia, dessa estagnação que trouxe … No início da pandemia eu já tinha a música “Quantas Vidas” gravada instrumental. O Guilherme gostou muito da música, fez a letra e me deu de presente. Foi muito legal isso. Eu tinha falado pra ele ouvir minhas músicas instrumentais e ele gostou dessa. De um dia pro outro ele fez a letra e já mandou, foi muito rápido. Eu conhecia o Sonic de outros trabalhos. Mandei pra ele e conseguimos fazer uma conexão massa. Com esse lance de isolamento, conseguimos conversar os três, mesmo distantes, e foi legal! E bateu perfeito! Vingou legal assim… Todo mundo entendeu bem a proposta e agregou com suas ideias.  

Sonic Junior Mesmo que esteja muito distante, a colaboração criativa pode acontecer, porque nos acostumamos a usar a tecnologia para nos aproximar. Aprendi nestes tempos que, mesmo sem vontade, você tem que fazer música, tem que avançar, superar as barreiras e dificuldades.  

Guilherem Folco Bom, acho que um mundo mais colaborativo é o que a gente espera. Procurar temas para compor músicas agora acho que vem sempre num contexto de pós fim do mundo, de apocalipse. O que a gente espera é que pautas de esquerda como renda mínima cidadã, reforma tributária progressiva e outras, sejam praticadas e já estão sendo vistas de forma diferente, até mesmo entre os neoliberais dos EUA e Europa. No Brasil não, somos atrasados, rsrs… Não dá mais pra viver num sistema que visa o bem estar do capital e o lucro acima de todas as consequências dessa desigualdade, que só aumenta, mesmo durante a pandemia. Dizendo do nosso processo criativo, eu funciono com estalos, alguma janela se abre e eu capto uma informação que, depois, serve de alicerce pra construção da narrativa… é difícil dizer, porque temos que dosar o quanto conseguimos ser otimistas no meio do limbo do anti-intelectualismo, do chorume da pós verdade. Temos que buscar inspiração e tentar levar luz nas trevas… e as parcerias estão cada vez mais dispostas a acontecer, eu sinto. E temos que estar prontos pra ocupar espaços, construir galpões coletivos da galera da arte e pressionar o poder público para garantir o mínimo, porque vai ficar cada vez mais escasso empregos e espaços, sem falar na desindustrialização e novas profissões a que teremos que nos adaptar.  

Alexandre Marques “Quantas vidas” é carregada de um suingue e sotaque bem brasileiros, com um tema universal. Pesquisando sobre o trabalho dos três, que vai do rock e ritmos brasileiros ao eletrônico, como juntaram conhecimentos para chegarem a esta estética e quais influências estiveram com vocês nos processos de arranjo instrumental, melódico e da letra?  

Davi Índio Eu gosto de muita coisa, mas quando eu vou compor, geralmente penso em coisas como o instrumental brasileiro, no rap americano, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Beastie Boys, Run-D.M.C., The Meters… é isso que eu penso, nesse lance de compor o instrumental.  

Sonic Junior Nessa composição eu só fui o intérprete e minha contribuição foi a criação melódica da voz nordestina. Fui seguindo a intuição, muito em cima do que a melodia ia me dizendo. A introdução eu criei por sentir falta de uma voz que chamasse a música, sabe? Pensei numa parada que fosse fácil de assimilar e que as pessoas conseguissem gravar a letra, que a letra ficasse na cabeça e que tivesse um refrão. A influência do som, desse baião, do groove… é coisa de sentir mesmo e tentar fazer uma parada bacana que as pessoas gostem!  

Guilherem Folco A letra me veio justamente dessa frase nossa!!! “quantas vidas a gente já viveu dentro dessa mesma vida” Aí eu falei “opa” anota isso que dá uma letra. . . . Aí o Davi me procurou, mostrou umas bases, uns beats, me apresentou o Sonic, e eu adoro Recife, o mangue beat, já fui a Olinda… e eu falei: eu tenho a letra. Mas só tinha a frase: quantas vidas já vivemos dentro dessa mesma vida. E eu realmente amo a música de Recife. Essa junção é um presente do universo atemporal, caiu aqui no Brasil (não podia ser em outro lugar) e vai dar a volta no mundo todo agora, imortalizada nessa vida pra todas as outras vidas que virão. 

Alexandre Marques é compositor, produtor musical, fotógrafo, videomaker…nas horas vagas cervejeiro, padeiro caseiro e autor da coluna aRtemporal. Formado em marketing, viu no trabalho de assessoria de comunicação uma oportunidade de unir conhecimentos e estar próximo dos artistas, um universo que adora, levando suas obras para mais pessoas.

  

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