aRtemporal #2 Indaíz: mais que banda de reggae, uma ideia

Música #dubrasil

em 26 de fevereiro de 2021

Chega chegando

Conheci a galera da banda Indaíz há um tempo, quando dividimos palco em um festival que eu mesmo organizei no bairro do Tatuapé, em São Paulo. Ali pude ver tamanha coerência de som, discurso, visual… parecia uma família que se reuniu para jantar e dividir uma panelada de reggae autoral, unida em um clima de camaradagem cotidiana, deixando a “mesa” livre para quem mais quisesse chegar e ouvir música, ora mântrica, ora alegre, mas sempre com um discurso enraizado em questões sociais que desenha sua comunidade com palavras flecheiras pra não deixar dúvidas: “Indaíz é indomável, é raiz, é para representar o sentimento do povo pobre brasileiro, um povo que não se acovarda e nunca abandona suas raízes”.

Depois deste festival, passei a encontrar com a Indaíz frequentemente, não só com seus integrantes de alma gentil, mas mais com a sua música, com as frases fortes em suas letras, com seus logotipos e grafismos emblemáticos. Uma espécie de “entidade de aura grande” que trabalha pela e para a periferia, mas que invade a cidade imaginada pela classe média, construtora de muros visíveis e invisíveis, cliente de agências de seguro, que insiste em ver só violência e degradação em tudo o que acredita estar fora de seu mundo. O reggae junto com o rap, o samba de comunidade e tantos outros movimentos artísticos ditos periféricos, de “Favela”, sempre chegam “chegando” e deixam beeeemmmmm pequena e pobre a cultura baseada em consumo.

Indaiz: Vídeo Clipe “Favela”

Indaíz = indomável + raiz

No ano de 2014, Guto Gonzalez, amigo e produtor musical que sabe extrair o som ótimo de quem passa por seu estúdio, o Lamparina, juntou-se à banda para produzir o primeiro álbum: “Favela”. Com os integrantes leu, uniu e traduziu ideias que começaram a se esboçar em meados de 2008 na favela do Jardim Rincão, extremo oeste de São Paulo, alicerçadas pelo ritmo jamaicano de Bob Marley e sua rapaziada. Esse álbum foi chave de muitas portas que se abriram para a banda. Com ele, tocou em grandes eventos em Sampa: Projeto Primavera; Virada Cultural; Centro Cultural da Juventude SP; Casa de Cultura São Matheus; Virada Virtual; CCPC/SP; Dia Municipal do Reggae, e também em outras cidades: Festa da Colheita – São Tomé das Letras – MG; Teatro Municipal de Barueri – SP, entre outros festivais, tendo o clipe da música “Gueto Sem Luz” na programação da MTV Brasil.

Indaíz: Vídeo Clipe “Gueto Sem Luz”

Assim como disse Nina Simone, “É uma obrigação artística refletir o meu tempo“, os integrantes da banda, na voz do vocalista e guitarrista Sandro Indaíz, têm esse sentimento na raíz de suas canções, de suas ações.

“Não podemos mudar o mundo, mas nossas vidas a música já mudou. Através dela passamos nossa verdade, nossa essência. Estamos na luta pela arte pois ela salva e nos liberta.” Sandro Indaíz

Em outubro de 2020 é lançado o segundo álbum da banda, “Jaraguá é Guarani”, também produzido por Guto Gonzalez, que narra, em suas oito faixas, a luta dos povos indígenas e moradores da região do Jaraguá por direitos e preservação, mesmo com recursos e incentivos escassos. Com o bordão “Queixadas, indígenas, existir é resistir. Doa a quem doer, Jaraguá é Guarani!”, a banda segue seu caminho trazendo para o palco a discussão social, propondo outros olhares sobre questões que envolvem respeito, humanidade e solidariedade em detrimento de ações que se vestem “dos ideais de progresso” sem responderem a pergunta: Progresso pra quem?

A faixa título, “Jaraguá é Guarani”, foi lançada como single em maio de 2020, durante a ocupação Guarani contra a especulação imobiliária em terreno de mata nativa próximo da aldeia Tekoá Pyau. No bairro do Jaraguá vivem indígenas de seis aldeias da etnia Guarani Mbya, que dividem espaço com moradores vizinhos, separados por uma fina linha de preconceito e falta de informação de alguns. A música se vale do suingue do reggae com pegada de funk para fortalecer a união entre a favela e a aldeia, e conta com as participações de Elaine Alves da Banda Ambulantes, e do grupo de rap indígena Oz Guarani. Sua capa estampa a foto de Sônia Barbosa (Ara Mirim), liderança Guarani, clicada por Thiago Carvalho Wera’i.

Indaiz: Álbum “Jaraguá é Guarani” – Outubro/2020

“Este disco representa nossa resistência, pois o trabalho da Indaíz nos faz sair da sobrevivência para existir dentro desse contexto atual, como artistas e moradores da Periferia de São Paulo”, afirma Sandro. A banda – Sandro Indaíz no vocal e guitarra base, Zazera Indaíz na guitarra solo e voz, Bob De La Rua na bateria, Sóstenes Matusalém no contra baixo e Marcelo Jah, no teclado – caminha com passos firmes e muita atitude, planejando novos lançamentos e levando seus ideais para além da banda, para além da música!

Coletivos “Ocupa Pinheirinho” e “Salve Kebrada!”

COLETIVO OCUPA PINHEIRINHO – Em julho de 2009 foi inaugurado o parque Pinheirinho D’água, no bairro do Jaraguá. Nele, Sandro Indaíz começou a trabalhar como ajudante geral e, no aniversário de um ano do parque, em uma festa de confraternização dos funcionários, organizou, com sua banda, um show comemorativo que abriu seus olhos para um projeto cultural que levaria, além do já existente futebol de várzea, também música, poesia e arte de todas as formas para ampliar o lazer e a vida cultural da região. Foi em julho de 2015 que Sandro apresentou suas ideias sobre o espaço para o novo gestor do parque, que deu asas aos sonhos de seu funcionário, se propondo a apoiar projetos que abrissem portas e promovessem a cultura local. Assim começou a nascer o evento “CASARÃO ARTE LIVRE”, nomeado pelo Sandro “por dar espaço para bandas e todo tipo de arte possível”.

Eu tive a grata felicidade por tocar com minha banda em um dos eventos realizado pelo Casarão no centro de convivência do parque. Fomos recebidos com extrema gentileza pelo público de lá e pelos organizadores, misturando nosso rock com o reggae e o rap de outras bandas. Foi um dia mágico, com outras atrações muito bem organizadas, em um parque lindo, emoldurado por um dia lindo. Alegria gera mais alegria. União gera mais união.

Banda Indaíz: Primeira Edição do Casarão Arte Livre – 29/11/2015

Com a participação de muitos amigos e voluntários para a realização dos eventos, Sandro reuniu colaboradores que perceberam que só assim poderiam dar para a sua região algo que deveria ser garantido pela sociedade. Então o coletivo OCUPA PINHEIRINHO nasceu e virou símbolo de resistência, de realização de sonhos mesmo com tantas dificuldades, de exemplo de amor e solidariedade. Nas edições posteriores, o projeto ampliou suas atrações com atividades pensadas para crianças, como oficinas para bebês, estórias contadas e resgate de brincadeiras infantis. O coletivo, hoje já com mais de 5 anos, levou também atrações para além do parque e Sandro, junto com sua galera, pretende ampliar ainda mais esse sonho fazendo parcerias e “aprendendo, a cada dia, a deixar o pensamento coletivo ativo”!

“A esperança pode morrer quantas vezes ela quiser. O que não pode morrer é a nossa utopia periférica. Ela nos move para sermos o movimento constante em busca da consciência coletiva.” Sandro Indaíz.

COLETIVO SALVE KEBRADA! – O “Coletivo Salve Kebrada!” tem por objetivo mapear a cultura e a história do bairro Jaraguá e arredores da periferia da zona noroeste de São Paulo. Nasceu em 2014 com base no áudio visual, na valorização da história oral e da ciência periférica. Em 2016 foi contemplado pelo Programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) da Prefeitura de São Paulo. O Salve Kebrada – parceiro dos eventos Sarau Segunda Negra, Guerrilha Sonora, Quebrando Correntes, Cine Taipas, do Coletivo Ocupa Pinheirinho que realiza o evento Casarão Arte Livre e Circuito Clandestino – foi contemplado em 2019 no edital Fomento à Cultura da Periferia, da secretaria de Cultura de São Paulo – SP, com o projeto “Favelas e Aldeias”, que amarra as lutas socioculturais dos povos das favelas com os dos povos originários das terras indígenas do Jaraguá.

Conheça um pouco mais sobre a atuação do Coletivo Salve Kebrada! junto aos movimentos culturais e de parceria com outras organizações:

10•edição do PERUSFERIA – Dia do Graffiti, março de 2018.
Iniciativa do grafiteiro GUETUS com colaboração da Ação Educativa, com mais de 45 artistas.

Alexandre Marques A banda Indaíz tem sua origem no reggae e em temas que retratam a cultura periférica. Vocês conseguiram imprimir muito bem essas características na banda. Como foi esse planejamento, a escolha do ritmo, os assuntos abordados, o visual tão natural em vocês… como funciona todo esse processo criativo?

Indaíz Somos influenciados pelo Rap dos anos 90 e começo dos anos 2000. O Reggae veio depois. Nossa ignorância musical achava que o Rap não era tocado por bandas e músicos porque a gente não via isso. O que víamos era o Dj e os Mc’s mandando Rap. No Reggae já víamos vídeos de uma banda tocando e isso nos encantava. De tanto ouvir reggae e escutar histórias de um colecionador da quebrada, de álbuns de reggae “chileno”, a gente achava que tocar reggae era mais fácil, por estar com o ritmo dentro do nosso inconsciente 24 horas por dia. Além disso, descobrimos que o Rap é uma vertente do Reggae e surgiu na Jamaica, e juntando esse contexto Jamaicano com o nosso contexto brasileiro de jovens de periferia, chegamos ao consenso de que o Reggae era o veículo perfeito para colocar pra fora toda nossa angústia e querer viver para além da sobrevivência. Nosso processo criativo começa com o Sandro, vocalista, que cria as letras e as harmonias, depois ele leva para o ensaio e mostra a ideia para a banda. Se outros integrantes aprovarem, começa o processo de composição individual de cada integrante com o seu instrumento. Basicamente é assim que criamos nossas composições, mas isso não quer dizer que outras maneiras de composição não possam fazer parte também, como composição de outros integrantes, ideias de harmonias. Somos bem abertos pra nos ouvir dentro da banda e cada um tem autonomia para trazer suas influências para cada música. Com todo esse flerte do governo com o autoritarismo, a Indaíz se coloca a favor da democracia, praticando-a diariamente dentro da banda.

Alexandre Marques Além das músicas envolventes e dançantes que empolgam o público, vocês também conseguem empolgar bandas de diversos estilos musicais para se unirem em apresentações. Nem sempre as bandas conseguem se livrar do “comportamento de concorrentes”. Como vocês enxergam esse movimento multicultural e de união, para fomentar e miscigenar culturas e por que acham importante?

Indaíz Vivemos em um caldeirão cultural. A periferia é plural e dentro dessa pluralidade a Indaíz aprendeu a conviver com todos os estilos e artistas. Não precisamos fazer música com todos, mas precisamos respeitar o espaço e a caminhada de cada um. O movimento nunca será singular se depender de nós, a mistura de ideias e vivências formam um coletivo forte. Acreditamos que produzir arte, cultura e lazer na quebrada é aprender diariamente que, só misturando bem o caldeirão cultural periférico, podemos construir vínculos e fazer com que os moradores do extremo noroeste de São Paulo se acostumem com a cultura na sua rua, praça, parques, no caminho do trabalho. Se a gente quiser atingir mais pessoas, temos que misturar tudo, mas com respeito e responsabilidade sociocultural.

Alexandre Marques A banda cumpre muito bem um papel social, levando para a região periférica alegria e também consciência de cidadania e de luta, nas letras das músicas. Mas vocês extrapolam esta ação da banda, participando de coletivos e de eventos culturais de parceiros. Como é juntar tudo isso, alinhar sonhos e expectativas na comunidade em que vivem, arranjar energia para, de fato, fazer acontecer, tirar do mundo das ideias e colocar em prática o evento, a divulgação, logística… o rolê todo?

Indaíz Partimos do princípio de que, “O que tem que ser feito, tem que fazer”, e seguimos a filosofia do nosso mestre José Soró (Sevirologia – A arte de se virar. Se você tem, você faz. Se não tem, se vira). Somos uma banda autoral e a nossa escolha nos obrigou a criar nossas próprias oportunidades, pois não são todos os espaços que deixam bandas autorais se apresentarem e o nosso território também não tem casa de cultura, mecanismo público cultural. Quase 12 anos de caminhada nos ensinaram que tocar é pouco. Os bastidores de uma banda underground dizem muito sobre o que ela é e faz para movimentar a cena cultural independente, para se manter na ativa. Não somos do campo da teoria, somos ação, atitude, somos ciência periférica, e ela se constrói dessa maneira: testando, fazendo e dialogando com a comunidade. Depois, vamos ver o que deu certo, o que deu errado e seguimos aprendendo, na prática, como produzir e organizar um evento cultural na quebrada. A logística dos eventos é sempre um desafio, já levamos equipamentos no ônibus para o evento rolar, agradecemos a cada um que já colocou seu carro à disposição para ajudar a levar os equipamentos, muitas vezes empurramos a Kombi do Seu Geraldo, na subida, carregada de equipamentos, para fazer acontecer. Trabalhamos para que isso mude e que a gente não passe tanto veneno para promover arte, cultura e lazer. A divulgação do evento é um trabalho de base com as escolas e espaços culturais independentes do território e coletivos parceiros. Aprendemos a utilizar as redes sociais a nosso favor, prezamos muito postar tudo com informações para o público que acompanha nosso trabalho, conseguimos criar uma identidade para cada evento que produzimos, pensamos no lado social que cada evento agrega para o público. Estamos aprendendo e aprimorando a cada evento realizado em nosso território. É difícil atingir todas as pessoas com o nosso trabalho, mas sabemos que nossa atitude de movimentar o que está parado é algo grande e temos que valorizar. O que é Indaíz? A resposta é o que viramos: somos Sarau Segunda Negra, Guerrilha Sonora, Quebrando Correntes, Cine Taipas, Circuito Clandestino, Jaraguá é Guarani, ECL Fofão Rock’n Bar, Salve Kebrada, Ocupa Pinheirinho, Atitude Punk, somos a mistura perfeita para combater esse estado Nazifacista.

Alexandre Marques é compositor, produtor musical, fotógrafo, videomaker…nas horas vagas cervejeiro, padeiro caseiro e autor da coluna aRtemporal. Formado em marketing, viu no trabalho de assessoria de comunicação uma oportunidade de unir conhecimentos e estar próximo dos artistas, um universo que adora, levando suas obras para mais pessoas.

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