aRtemporal #3 Claudya, Graziela, Chico Medori: muita história para ser cantada.

Música #dubrasil

em 7 de março de 2021

DNA

Fui apresentado para a Graziela Medori na “era pré-pandemia”, por um amigo em comum, em um bar “descolado” próximo ao metrô Sumaré. Tomamos cervejas diferentes, falamos de Rita Lee & Tutti-Frutti… saí de lá feliz por ter conhecido uma cantora entusiasmada, de sorriso fácil, que leva a sério sua carreira e que sabe de música brasileira. 

Foto: Ruiva Pisacane

Filha do icônico instrumentista e compositor Chico Medori e da cantora Claudya – que viveu o nascimento da bossa nova, os grandes festivais e que nos legou uma contribuição imensa e valiosíssima – Graziela tem “berço” musical e sabe aproveitar. Não significa que não haja muito esforço. Tem que ter perseverança e estar antenada às oportunidades, sabendo que não é fácil o “rolê” de uma artista para fazer seu trabalho chegar ao público, atrair bons músicos que comprem a ideia, driblar obstáculos, pandemias… Do álbum Claudia, de 1967, ao Nossas esquinas, de 2020, muita história boa rolou!

Claudya

De Juiz de Fora para o mundo afora, lançou-se profissionalmente na década de 60, em São Paulo, tendo participado do Fino da Bossa entre tantos outros programas importantes que descobriram grandes cantores, como ela. Em 67, nasce seu primeiro álbum intitulado Claudia, que abre com Vento de maio, de Gilberto Gil e Torquato Neto, música para ganhar festivais. Uma menina de 19 anos com um trabalho gigante nas mãos. Um álbum de estreia que nos estimula a ouvir outros mais, dentre os mais de 20 que gravou em sua carreira. 

Em 69, venceu o Primeiro festival fluminense da canção com a música “Razão de paz para não cantar”, de Eduardo Lage e Alésio de Barros, e passou a colecionar prêmios em festivais pelo Brasil e o mundo, tornando-se a cantora brasileira mais premiada no exterior, com sua voz doce mas forte, jovem de notas precisas. 

Para os mais novos, antenados em música brasileira, seu talento foi resgatado com propriedade por Marcelo D2, em 2008, com a música “Deixa eu dizer”. 

Ao longo de sua carreira, gravou canções de grandes compositores, entre eles Caetano, Gil, Chico Buarque, Gonzaguinha, Chico Medori, Paulinho Nogueira e tantos outros, e também músicas suas. Sim, ela é uma excelente compositora! Recomendo conhecer suas composições para entender meu entusiasmo. 

Claudya segue participando e encantando no programa de TV – The Voice+. Ganhando ou não, uma estrela nunca para de brilhar.

Chico

Respeitado por grandes músicos ao redor do mundo, Francisco di Maria Jr, leva a musicalidade brasileira em seus trabalhos e também ensinando sobre a nossa cultura musical. 

Chico Medori já tocou com Hermeto Pascoal, Horácio Malvicino (guitarrista e arranjador de Astor Piazzola), Cesar Mariano, Dominguinhos, Wilson Simonal, Toquinho, Fafá de Belém, Eduardo Araujo, Raul Seixas, Guilherme Arantes, Chiquinho de Moraes e tantos outros. Uma lista de gigantes.

Baterista, compositor e arranjador, além de integrante do Grupo Medusa – banda de música instrumental brasileira – participou da extensa discografia da cantora Claudya e de sua filha Graziela. Em seu segundo álbum autoral, intitulado Latindo sobre América, dá um belo exemplo de sua versatilidade, misturando MPB com influências latinas e a liberdade do jazz. Nele, imprimiu todas as suas refinadas habilidades musicais, com maestria, em suas 13 faixas! 

Referência obrigatória pra quem quer ser um grande baterista. 

Grazi 

Então, é destas duas personalidades brasileiras que nasceu Graziela Medori. Parece ter sido sua musicalidade educada com todo o cuidado por seus pais, para, aos 25 anos, lançar seu primeiro álbum: A hora é essa. Chico Medori ficou responsável pelos arranjos e direção musical. Como aconteceu com sua mãe, foi “um primeiro álbum” excelente, suingado, com metais, teclados, linhas de bateria precisas e, claro, uma voz expressiva que explora timbres, escalas, interpretações e esbanja brasilidades. Com a música “Brazuca nervosa”, composta por seu pai, ganhou como melhor intérprete no Prêmio Sorocaba de Música, em 2013. 

“Não tenho medo de cantar, não tenho medo de sorrir, sou brasileiro não deixo nada cair”. 

Conheci primeiro o álbum Toma limonada, de 2015, com a música de mesmo nome em que divide o vocal com Seu Jorge, uma combinação ótima de vozes. O álbum abre com a música “Brasil multi raça”, deixando clara a sua predileção pela cultura brasileira. 

Em novembro do ano passado, lançou com o pianista Alexandre Vianna, pela gravadora Kuarup, uma releitura do Clube da Esquina, trazendo aos arranjos personalidade e respeito à grandiosa obra dos mineiros. Os dois seguem divulgando esse trabalho em suas redes sociais, na imprensa e também participando de lives bem produzidas. Assisti a primeira live de uma série que pretendem fazer e, de fato, os dois, juntos com os músicos Kabé Pinheiro, na percussão, e Marcelo Mariano, no contrabaixo, levaram-me para um tempo em que ouvia demais a turma do Milton Nascimento e Lô Borges e ficava tirando suas harmonias no violão. Graziela e todos os músicos, muito à vontade, transmitiram maturidade e o clima de amizade dos frequentadores do Clube da Esquina. Foram Minas Gerais!

Ouça “Tudo que você podia ser”, de Lô Borges e Marcio Borges, no arranjo de Grazi e Alexandre. 

Como bem disse o jornalista e crítico musical Mauro Ferreira: “…a cantora e o pianista deixam as próprias marcas nas esquinas do clube fundado por Milton Nascimento com códigos de liberdade e irmandade que legitimam a visita de Graziela Medori e Alexandre Vianna nesse universo aberto para quem quiser chegar”. 

Graziela entende bem seu momento artístico e o imprime com naturalidade em suas gravações, em suas apresentações, no que comunica em entrevistas e redes sociais. Claudya e Chico Medori têm história na música brasileira. Suas contribuições continuam vivas, fazendo parte essencial de nossa cultura. 

Alexandre Marques Como manter o otimismo, perseverar em um país de pouca memória com tanto pra se lembrar, renovar sem perder a brasilidade, num momento em que a pandemia exigiu isolamento social? 

Claudya O universo está sempre em atividade e mutação. Tudo vibra, e é claro que o otimismo está sempre vibrando coisas positivas, propiciando assim as ideias que brotam até das coisas que nos parecem feias e improdutivas, como a pandemia que, por incrível que pareça, nos tem impulsionado para uma transformação e um entendimento maior de nós mesmos, como uma inspiração. 

Graziela Medori Temos que nos apegar na construção da nossa história poética, na importância da linha do tempo. Saber quem somos para avançar, saber do nosso histórico político, cultural, para continuarmos lutando. Manter o otimismo nesses tempos pra mim, foi mergulhar profundamente nas linhas de raciocínio de um passado, muito presente. Revisitar muita coisa dita, escrita, que atravessou o tempo. Hoje sei muito mais sobre o que fomos e onde podemos chegar, pelos meus estudos e pesquisas. Nada do que acontece hoje em questão social, é por acaso, tudo tem uma razão!! Entrar nessas mensagens, me fez entender que lutar e usar a voz como instrumento é fundamental! 

Chico Medori O Brasil sempre teve pouca memória mesmo, um país que não cultua as pessoas que contribuíram socialmente. Um país que só anda pra frente, né? Anda pra frente desordenadamente mas anda. E pra renovar essa brasilidade, o que nos faz, é essa coisa da terra mesmo, né? Nascemos aqui e queremos mostrar ao mundo que nós temos valor, essa que é a verdade. Por isso que as vezes pouco importa, né? A gente só sente muito é a falta de espaço para todos. É uma desigualdade desumana porque só uns é que tocam, só uns é que ganham e acho que deveria ter mais espaços na mídia televisiva, é isso o que falta pro Brasil, mostrar as outras coisas. Eu vejo a TV cultura uma “senhora sentada no sofá” que não faz nada pela cultura brasileira, pela verdadeira cultura brasileira. Ela fala um pouco de teatro e tal, mas de música ninguém quer falar. O isolamento social é pra quem se acha isolado. Eu não me acho isolado, pelo contrário, estou produzindo, não estou morto! Então, pra mim não existe isolamento, existe injustiça, isso existe. 

Alexandre Marques Milhares de músicas são lançadas diariamente no mundo e, independentemente de sua qualidade, vão tornando o ambiente musical repleto de informações muitas vezes redundantes. Apesar de muita coisa boa aparecer, resgatar e recontar nossa história através de nossas músicas e artistas me parece um caminho interessante para entendermos nosso momento e adquirirmos espírito crítico. Vocês concordam? De que forma enxergam este um caminho importante ou não? 

Claudya Sim as músicas estão sendo feitas a todo momento e nós estamos diariamente convivendo com muitas informações,  algumas aquém do nosso gosto e outras além da imaginação, da compreensão musical, como a música instrumental, o jazz que nos leva para mundos diferentes, para o incompreensível, no entender de um público acostumado à música entendível, de consumo imediato. 

Graziela Medori Eu acredito nas expressões culturais e nas forças positivas existenciais nessas expressões! Todo mundo tem o direito de explorá-las. Temos um mar para navegar que são as plataformas digitais. Essa grande possibilidade, afunilou também. Muita gente não consegue acessar o meu trabalho, pois não sabe da existência dele. Estamos em alto mar, mas jogados à deriva, quando não temos algo que sustente o trabalho com investimentos altos. Para a minha música e meus vídeos circularem com frequência, tem de haver muito investimento e se não parte de uma multinacional, fica difícil! Já a democratização desses meios, foram importantes para tornar visível, o que era praticamente invisível sem essas ferramentas. Existe uma contradição, mas é assim que funciona. Eu acredito no som, na música, no canto carregado de verdade, emoção, principalmente com algo relevante para passar para as pessoas. Independente do que aconteça, se tiver consistência no diálogo entre música e história, terá porta aberta, onde quer que seja! 

Chico Medori Milhares de músicas são lançadas diariamente no mundo, são, mas, consome quem quer, concorda? Quem gosta de porcaria, consome porcaria. E não adianta a gente falar, ir contra porque sempre teve isso. Agora, o que fica difícil é as pessoas saberem como irão buscar essas informações boas porque elas estão no oculto. A maioria dos artistas sabem onde buscar quem toca, quem não toca, quem compõe, quem está dizendo alguma coisa, quem está e quem não está. Não é? Eu acho que a briga sempre vai ser, como diz o Silvio Santos, a coisa é brigada mesmo, porque a maioria tem esse trabalho… que eles acham que estão certo, falar de tragédia, falar disso, falar daquilo. A maioria vai falar isso e a música que não é tão rebuscada, de fácil leitura, ela não é aceita. Não é que ela não é aceita, ela não é tocada, ela não é mostrada, ela é ocultada, então, eu tenho uma música, a música que toca, que tem acesso, que as rádios tocam, que as televisões mostram, essa é a música, o resto não interessa. Nem sei onde buscar. O artista fica sempre meio que jogado. 
A música é, tudo o que é tocado e conhecido é o que tá valendo, né? É como se voltássemos aos séculos passados em que só tinha música erudita, então era essa a música comercial, era essa que se tocava. Mas onde é que o povo ia buscar sua informação? Na rádio? Não, não tinha rádio. E onde eles iam? Nas praças! Eles iam aos teatros, iam ver a música, ouvir a música, sentir a música. Diferente daquilo que se transformou a rádio um veículo que se tornou o principal meio de comunicação. Hoje nós temos a televisão, a internet e tudo mais, mas a coisa boa, a coisa realmente que possa me levar e me instruir, o povo não sabe onde buscar. Infelizmente é assim e vai ser assim acho que por muitos anos. 

Alexandre Marques Como falamos da produção de artistas que transpiram música, não poderia deixar de perguntar como vocês elaboram seus projetos, como surgem as ideias para novas composições, enfim, como funciona trabalhar em conjunto e manter trabalhos solos também? 

Claudya Estamos precisando compor mais, fazer trabalhos amiúde. Quando nos propúnhamos trabalhar,  as ideias brotavam como água da fonte. De uma fonte cristalina que jorrava incansavelmente. Precisamos voltar a criar e quando nos propusermos com certeza a fonte voltará a saciar nossa sede de criação. 

Graziela Medori Ah, meus pais são demais, aprendo diariamente com eles. Foram muito generosos comigo, sempre me deixaram muito à vontade e sempre me apoiaram!! Nunca me deixaram a pé! Sempre respeitamos nossos espaços, meu pai produziu dois discos meus: “A Hora é Essa” e “Toma Limonada”, fez os arranjos e gravei algumas coisas autorais dele. Nesse período tínhamos pequenas discussões, por trabalharmos intensamente e por sermos iguais também! rsrs… Tínhamos alguns choques, mas sempre foi prazeroso, com muita troca. Minha mãe insistia para eu cantar nos shows, as vezes não estava a fim, mas também sempre me acompanhou, me dando muita força e amor!! Nos respeitamos, estamos cada um no seu momento musical, daqui a pouco inventamos algo juntos. Somos assim, é tranquilo, muito de boa!! 

Chico Medori Eu a Claudya e a Graziela, minha filha, cada um tem o seu trabalho. Eu acabei há muitos anos atrás fazendo um grande trabalho com a Claudya, o “Pássaro Emigrante”, e com minha filha, fiz dois álbuns muito importantes na carreira dela que é o “A Hora é Essa” e o “Toma Limonada”. Foram os dois trabalhos produzidos por mim pra minha filha. E agora ela está seguindo o trabalho dela, mas isso não impede de a gente estar juntos, a gente sempre está junto. Moramos em casas diferentes, mas continuamos produzindo. Acreditamos todos nós em músicas boas, músicas que tem melodia, músicas, enfim… A gente não pode também colocar música ruim e música boa. Para várias pessoas, música ruim é a boa e para várias pessoas músicas boas são ruins, pra aquele que não gosta. Então, cada um faz o que quer. Ouça o que quiser. Eu ouço coisa boa. Vou morrer com ela. 

Alexandre Marques é compositor, produtor musical, fotógrafo, videomaker…nas horas vagas cervejeiro, padeiro caseiro e autor da coluna aRtemporal. Formado em marketing, viu no trabalho de assessoria de comunicação uma oportunidade de unir conhecimentos e estar próximo dos artistas, um universo que adora, levando suas obras para mais pessoas.

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