aRtemporal #4 Som independente da banda Ambulantes: reggae, liberdade e atitude social.

Música #dubrasil

em 7 de junho de 2021

Som independente

A luta necessária e eterna por dias de paz e por respeito às diferenças nos grandes centros urbanos, traz consigo uma trilha sonora carregada de valores que passa pelo brasileiríssimo samba de quintal, pelo rap, pelo dub, pelo reggae, entrelaçando comportamento, atitude política e espiritualidade.

As bandas independentes, infinitamente mais que as do mainstream, têm fundamental importância na propagação desses valores, pois vivenciam o dia a dia de suas comunidades. Em cada canto da cidade há vozes que se distinguem culturalmente, que seguem caminhos diferentes por escolha ou por necessidade, para chegar ao mesmo fim, mesmo lutando muitas vezes unidas por causas semelhantes.

“Longos anos e a escravidão deixam marcas que concretizam hoje, o poder desigual” Ambulantes.

As comunidades periféricas, por exemplo, são diferentes entre si. Sei que é óbvio mas repito aos que ainda não entenderam: não dá para ter um olhar simplista que as enxerga como uma coisa só, num balaio só: “comunidades de periferia”. Pra quem vive com muros iguais, discursos iguais, presos a um referencial padronizado, talvez não consiga entender esse “óbvio”. Liberte-se, por você, por nós!!!!

Banda Ambulantes: “Caminho Ancestral”

Por isso, incentivar e entender a produção independente, em suas diversas manifestações, é muito mais que dar valor aos pequenos artistas, o que por si só já valeria. É levar ao conhecimento de todos que esse caldo cultural é o que faz uma cidade ter cara, ter alma, ter humanidade.

Ambulantes

Em São Paulo, cidade em que vivo, muitas bandas de reggae engajadas em questões humanitárias estão fazendo a diferença não só levando mensagens nas letras de suas músicas, mas também organizando coletivos e movimentos pró cultura, como a banda Indaíz, já comentada aqui na revista, e também a banda Ambulantes que promove a diversidade cultural para se libertar e levar esse espírito de liberdade adiante, por onde perambular.

Em tempos de pandemia, a banda compôs a música “Fica em Casa” e reafirmou, pra mim, que a liberdade deve andar de mãos dadas com a responsabilidade.

Banda Ambulantes: “Fique em casa”

A banda formou-se em 2006, a princípio com amigos que foram se conhecendo através dos movimentos que organizavam em espaços públicos e das ideias que trocavam sobre as causas sociais urbanas. Nessa época, resolveram juntar influências para tocar músicas, misturar instrumentos e assim ampliar as possibilidades para a comunicação do que pensavam, do que viviam. Sempre em movimento, o nome Ambulantes surgiu.

Foram agregando outras pessoas em sua trajetória, umas foram saindo, outras foram chegando… Da formação original, o Pedro Comuna, baixista, e o guitarrista e violonista Luis Massa, os dois professores de história, fazem parte da atual formação, que conta também com Elaine Alves e Regiane Cordeiro nos vocais, Jah Fyah na percussão, Rodrigo Alves na guitarra e Tootz I no teclado e programação.

Por prestigiarem a liberdade, estes integrantes e todos os que já passaram pela banda trouxeram influências de vários estilos, como o jazz, rap, dub, blues, hip-hop, samba, rock, colocando nas músicas batidas que vão do terreiro ao samba e, também, instrumentos que vão dos clássicos do reggae à flauta transversal. Isso tudo deu à banda um aspecto “metamorfósico”, sob a batuta do reggae, que deixa nossa curiosidade querer investigar mais sobre suas fases.

Banda Ambulantes: “Mulher Brasileira”

A banda entende que a arte tem que gerar uma modificação, tem que fazer as pessoas repensarem suas atitudes, sua maneira de olhar o mundo e encarar a diversidade que está aí, presente, e sempre estará.

“… a chama eterna dos povos, culturas e tradições” Ambulantes.

Os Ambulantes acabam de lançar o single “Them man nah ready”, em parceria com David Hubbard. Dá o play e divirta-se!

Banda Ambulantes & David Hubbard: “Them man nah ready”

Alexandre Marques: Os Ambulantes este ano comemora 15 anos de vida. Durante essa caminhada, muitos integrantes colaboraram com a história da banda. Como funciona assimilar tantas influências e ideias libertas no processo de composição de vocês e porque o reggae os uniu, já que os integrantes, atuais e que já estiveram na banda, gostam de tantos outros estilos musicais?

Ambulantes: O “reggae é enorme”, como disse Andrew Tosh, por isso ele assimila diversas influências em cada parte do mundo. Aqui no Brasil não é diferente, e todos nós temos influências da música produzida por aqui. Nós somos músicos e, por isso, estamos sempre pesquisando e estudando. A música e a cultura são mutáveis, estão em constante transformação, a história do reggae mostra isso. Desde seus primórdios até hoje já passou por diversos momentos. Então, para nós é natural receber influências diferentes. O que nós não perdemos são nossas raízes nos fundamentos dessa música jamaicana. Como disse Cedric Myton: sigam adiante, mas não esqueçam das raízes.

Alexandre Marques: Os integrantes da banda, para além da música, também participam de coletivos e movimentos culturais que auxiliam muito às comunidades em que estão presentes. Quais coletivos vocês estão engajados e como estão atuando em tempos de pandemia?

Ambulantes: Nós nos envolvemos muito em diversos movimentos de resistência, no bairro do Butantã, onde a banda se formou, nós defendemos áreas verdes como o Parque da Fonte, no Morro do Querosene, o Parque Chácara do Jóquei e o Viveiro 2 do Butantã. Nós também fazemos parte da Associação Nacional Reggae, a qual ajudamos fundar e hoje alguns de nós fazem parte da Diretoria e Conselho da entidade. Também estamos no Instituto Bola de Fogo, do qual o nosso baterista, Fabrício Jahfaya é diretor. Um outro espaço que temos, e que construímos ao longo desses anos, é o programa de rádio “Já Regou Suas Plantas?”, onde fazemos entrevistas, debates e audição da música reggae.

Alexandre Marques: Falando em pandemia, como a banda está trabalhando? Estão compondo, fazendo lives, tocando virtualmente? O que vem por aí?

Ambulantes: Estamos trabalhando à distância, produzinho e lançando alguns singles; já lançamos “Fique em Casa”, “Them Man Na Ready” (com Mestre David Hubbard) e recentemente “Luta”, os três com temáticas de crítica social, frente ao terrível momento que estamos vivendo, especialmente no Brasil, com esse governo genocida e reacionário, que é abertamente negacionista e impõe uma necropolítica de extermínio. Fizemos uma participação na Live do FAMQ (Fonte de Arte do Morro do Querosene) em defesa de uma área verde no Butantã. Estamos também trabalhando na finalização do nosso próximo álbum que pretendemos lançar no 2º semestre deste ano.

Alexandre Marques é compositor, produtor musical, fotógrafo, videomaker…nas horas vagas cervejeiro, padeiro caseiro e autor da coluna aRtemporal. Formado em marketing, viu no trabalho de assessoria de comunicação uma oportunidade de unir conhecimentos e estar próximo dos artistas, um universo que adora, levando suas obras para mais pessoas.

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