Curta: A Casa de Ana

Cinema #dubrasil

em 23 de julho de 2020

Formadas em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense, Clara Ferrer e Marcella C. De Finis começaram a trabalhar juntas já nas primeiras semanas de faculdade. O trabalho em questão era apenas um seminário para uma aula de História, mas a parceria vingou. Depois de muitos projetos acadêmicos, decidiram dirigir seu primeiro curta-metragem no quinto semestre – após perceberem, em uma mostra de filmes produzidos por estudantes do curso, a enorme disparidade na quantidade de obras dirigidas por homens e por mulheres.

Em 2016 filmaram “Seria melhor se você tivesse morrido”, atualmente disponível no Canal Curto e na plataforma de streaming Nvivo TV, e logo em seguida “A casa de Ana”, premiado pelo júri popular da mostra universitária do Festival de Brasília 2018 e atualmente disponível no Canal Brasil e na plataforma Cardume.

A Casa de Ana, 2017

Ainda motivadas pela crença no trabalho coletivo e pelo desejo de contribuir para uma representação feminina mais diversa e complexa nas telas, as duas seguem criando juntas, com três projetos de curta-metragem e uma série em desenvolvimento.

CURTA: A casa de Ana, 2017

Sinopse:

Aos onze anos de idade, Ana foge em circunstâncias enigmáticas e, sem outra opção, abriga-se na república onde sua irmã mais velha mora com outras três jovens mulheres. Entre pias de louça suja, pacotes de macarrão instantâneo, purpurina colorida, garrafas de cerveja e filmes suecos, Ana aprende algumas importantes lições. E ganha, no processo, uma nova família.

Ficha Técnica:

  • Direção: Clara Ferrer e Marcella C. De Finis
  • Roteiro: Clara Ferrer
  • Elenco: Melina Matos, Tainá Bevilacqua, Nua del Fiol, Laura de Castro, Camille Leite, Fernanda Pieroni, Bernardo Tavares
  • Assistência de Direção: Bia Lima e Bruno Ferrari
  • Continuidade: Guilherme Bianco
  • Preparação de elenco: Joana Caetano
  • Produção executiva: Sérgio Magraner
  • Direção de produção: Chanice, Renato Schuenck, Sérgio Magraner
  • Assistência de produção: Rebeca Hertzriken
  • Platô: Gustavo de Almeida
  • Direção de fotografia: João Victor Borges, Mariana de Melo, Tassiana Catein
  • Assistência de fotografia: Laura Jeunon
  • Still: Antonio Teicher
  • Direção de arte: Tatiana Delgado
  • Production designer: Elisa Bueno
  • Figurino: Lua Guerreiro
  • Assistência de arte: Clara Gervásio
  • Projeto gráfico: Constantin de Tugny
  • Técnico de som: Gustavo Silveira
  • Microfonista: Adriana Sally
  • Montagem: Gabriella Billwiller
  • Edição de som e mixagem: Pedro Drumond

LABO “Ela tem medo de criança” é uma fala ótima, que traz pra tela uma problemática que muitos adultos não param pra pensar: o ‘medo’ em lidar e aprender com as crianças. Elas estão muito mais abertas para uma série de questões, fora que o pensamento é mais simples, e essa simplicidade assusta. De onde veio a ideia da fala, alguma de vocês já passou por isso, como a adulta ou como a criança?

Clara A fala veio de maneira bastante espontânea quando eu estava escrevendo o roteiro. Era uma coisa que eu e as minhas amigas dizíamos muito quando éramos adolescentes. Parte disso, acho, tinha a ver com um desejo de nos distanciarmos de todo o universo tipicamente atribuído ao feminino – incluindo, aí, o instinto maternal. Os tempos eram outros, não se falava em feminismo, e acho que a única arma que a gente tinha pra lutar contra as categorizações que sentia caírem sobre nós, enquanto jovens mulheres, era a rejeição. Nesse sentido, ter medo de criança era ter medo de ficar presa ao lar, à família, ao cuidado com o outro – todas essas expectativas que tradicionalmente contribuem para impedir as mulheres de se focarem no seu desenvolvimento pessoal. Felizmente, acho que hoje vivemos outro momento, em que é possível pensar, discutir e viver a feminilidade de outras formas.

Marcella Bem, não participei da criação do roteiro e da decisão de colocar essa fala, então minha colaboração vai no sentido de como entendi isso lendo o roteiro, e no processo para dirigir o filme junto com a Clara. Acho que uma das questões que um filme com várias personagens mulheres nos permite explorar é os diferentes tipos de feminilidade possíveis. Enquanto Júlia abraça a responsabilidade de se tornar “mãe” da sua irmã mais nova, cada uma das colegas de casa tem um jeito diferente de lidar com essa nova realidade. Acho que Sílvia, nesse sentido, representa a rejeição total, essa mulher que tem medo de todas as limitações que uma criança traz, à exemplo do questionamento das amigas sobre se ela ainda poderia continuar fumando uma vez que Ana esteja na casa. Acho também que Silvia, no começo do filme, não acredita na possibilidade de uma relação com uma criança que não seja vertical, que não seja de um cuidador e um cuidado, e não quer se ver nessa posição. Por outro lado, acho um jeito bonitinho de receber a Ana. Acho que existe nessa fala um esforço de dizer pra uma criança já muito rejeitada e deslocada, que nem tudo é culpa dela.

Clara E claro, tem ainda um outro aspecto, do receio que a presença infantil inspira pelo seu potencial desestabilizador. Nesse sentido, acho que as narrativas de amadurecimento são especialmente poderosas, e por isso a gente se volta para elas com tanta frequência no nosso trabalho: no fundo, creio que toda a imensidão de experiência e emoção, de fragilidades, questionamentos, incertezas e insatisfações que as crianças vivem, tudo isso em meio a uma absoluta falta de controle sobre o próprio destino, são coisas que os adultos também sentem, mas foram condicionados a deixar de expressar. A perspectiva infantil é uma ferramenta especialmente poderosa para ressuscitar esses sentimentos, que por sua vez, são necessários para mudar o mundo. Eles devem ser acolhidos e cultivados – com o mesmo cuidado com que a gente acolhe e cultiva os das crianças.

LABO A construção familiar acontece de uma forma bastante natural. Tudo vai se encaixando, inclusive a cena que Ana ‘veste’ a cabeça de unicórnio para assistir tv com o namorado de uma das meninas, é a mais surreal, e ao mesmo tempo se encaixa perfeitamente na narrativa. Sabemos que o cinema também mistura realidade com ficção. Na vida real, como seria a vida da Ana, saindo da casa dos pais para ir morar em uma república com pessoas mais velhas? Vocês acham que essa formação familiar seria possível?

Clara Então, a história da Ana é, na verdade, inspirada numa história real. No começo do século XX, o meu bisavô foi mandado para um seminário, e acabou fugindo uns meses depois – eu não conheço os detalhes, mas pelo que a minha avó conta, algum tipo de abuso sexual aconteceu. A família era grande, dezessete irmãos no interior da Paraíba, e talvez ele tenha sentido que não tinha espaço pra ele. Talvez não quisesse sobrecarregar os pais, talvez tivesse medo de ser obrigado a voltar pro seminário. O que eu sei é que, em vez de voltar pra casa, ele apareceu em Recife, onde o irmão mais velho estudava Direito. E acabou ficando por lá, crescendo lá, nessa casa de homens jovens que, imagino, estavam totalmente despreparados pra cuidar de uma criança. Mas funcionou, de alguma maneira. Essa história me fascina muito – acho que porque ela me diz que é possível encontrar um lugar no mundo, mesmo que de maneiras não tradicionais, e mesmo que não seja imediatamente fácil, confortável ou óbvio.

Marcella Pra mim é muito forte a ideia de que esse filme nasce em um momento no qual se questionava muito o conceito de família tradicional e havia um movimento social de defender que famílias vem em diferentes formas e composições. A história de Ana junto com sua irmã e as amigas dela da república é uma história de família, e de validação dessas famílias. Nenhuma daquelas mulheres está pronta para cuidar de uma criança, ainda sim, elas cuidam umas das outras, e tá tudo bem. Eu fui um bebê que morou numa república de jovens mulheres enquanto minha mãe terminava os estudos, e enquanto a gente gravava esse filme, uma das colegas da minha república se viu inesperadamente grávida, me colocando numa posição muito parecida com a das amigas de Júlia no filme, então não tenho dúvidas de que uma composição familiar como essa é possível.

LABO E aí, o que vocês nos dizem sobre o mercado cinematográfico para as mulheres diretoras?

Clara A gente ainda precisa avançar muito. Outro dia mesmo eu estava procurando referências de filmes nacionais com foco em amizade feminina realizados por mulheres, e não consegui encontrar quase nada. Ainda somos poucas – e menos ainda se falarmos (e precisamos falar) de mulheres fora de um certo recorte de raça, classe, orientação sexual e identidade de gênero. E quando há poucas de nós realizando filmes, há poucas histórias falando de maneira complexa e diversa sobre as nossas vidas, e pouca preocupação com a forma como escolhemos que mulheres podem aparecer diante da câmera, como filmamos os seus corpos. Acabamos reforçando olhares que nem deveriam mais existir, e num mundo tão influenciado e organizado ao redor da imagem, as consequências disso são desastrosas. Claro que, nos últimos anos, temos visto um grande movimento pra mudar isso. Mas é importante falar honestamente sobre os obstáculos monumentais que atravessam esse movimento. As formas ainda muito insatisfatórias como nós somos socializadas para nos comunicarmos, nos impormos e valorizarmos nossa própria vida, nossas habilidades, nossos objetivos e necessidades. A estrutura familiar que ainda nos responsabiliza, mesmo quando já inseridas no mercado de trabalho, pelos cuidados com a casa e os filhos. Todas as pressões, os abusos e os perigos que consomem uma energia e atenção que poderiam estar sendo usadas de maneira mais construtiva nas nossas vidas. Os espaços de trabalho pouco adaptados e interessados em acomodar as nossas necessidades. Os espaços de estudo, crítica e curadoria ainda excessivamente dominados por homens, muitas vezes incapazes de enxergar o valor em obras realizadas ou protagonizadas por nós. As próprias mulheres brancas, cis, heterossexuais, de classe dominante, que ainda têm uma incapacidade estarrecedora de entender, se preocupar e lutar pelas questões das mulheres menos privilegiadas. É muita coisa.

Marcella Essa é uma pergunta importante, que é até difícil responder, de tantas facetas que isso tem, rs. Mulheres fazem cinema desde que se faz cinema, e algumas das imagens mais fortes do cinema clássico são de belas mulheres. O que é difícil mesmo é ter mulheres em posições de chefia criativa, de tomada de decisões. E acho que é a conscientização de que nós precisamos ocupar esses espaços que é o mais importante – se por um lado, é um gesto político, que fala de representatividade, da criação de filmes que representam mulheres em suas mais diversas formas, por outro é um gesto prático também, garantindo que nós também tenhamos oportunidade de partilharmos dos recursos que circulam no audiovisual, e nos ocuparmos “só” disso como profissão.

Acho que nos últimos 10 anos essa consciência está crescendo dentro do setor, e podemos perceber nos festivais, nas universidades e nos debates uma atenção maior a isso. Os obstáculos são muitos mesmos, e muito grandes, mas é essa ideia de continuar uma construção, para que daqui a dez anos esteja melhor. Então, o que eu acho do cinema feito por mulheres hoje no Brasil? Acho absolutamente necessário e inspirador. Acho ainda pouco, escasso e elitista, sim, mas torço para que seja uma realidade temporária. Acho que faltam oportunidades, principalmente para mulheres que estão fora do recorte que a Clara menciona, mas também acho que quando essas oportunidades são superadas, filmes absolutamente incríveis são feitos. Como realizadora, me orgulho de me inserir nesse grupo inspirador, e luto para ajudar a destruir, aos pouquinhos, todas essas barreiras. E como público, me emociono com as narrativas femininas que vejo em tela, e estou sedenta por mais delas.

LABO Plural Singular + Cardume

A LABO Plural Singular e a plataforma Cardume que, entre muitas outras coisas, têm em comum a missão de fortalecer a produção cultural no Brasil, estão virtualmente de mãos dadas para toda semana apresentar um curta-metragem nacional e uma nano entrevista com sua / seu respectiv@ diretora / diretor. Assim como dar nome a todas as pessoas envolvidas na produção cinematográfica brazuca, porque nem só de direção e elenco é feito um bom filme. Preparem o estoque de pipoca que informação e diversão são por nossa conta.

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