Curta: As Últimas Putas de Paris

Cinema #dubrasil

em 30 de julho de 2020

Ana Paula Nogueira – Gosto de documentar pessoas. Melhor ainda se forem mulheres. Desde que comecei no jornalismo, quando ainda tinha 17 anos, personagens femininos sempre foram meu foco principal – e olha que eu cobria o segmento de Economia, mais especificamente o Mercado Financeiro. Na época, não só as personagens femininas eram poucas, em meio a imensidão de vozes masculinas, como também as repórteres que, como eu, se “aventuravam” nessa área (com duas pós-graduações nesse tema, acho que o termo “se aventurar” é um tanto quanto machista, não acham?). Pois esse era o termo usado nessa época ao se referirem às jornalistas do mercado financeiro. Tamanho desafio talvez explique o motivo que me levou a ficar tanto tempo cobrindo Economia em veículos como Gazeta Mercantil, Estadão e Agência Reuters.

Mas meu sonho sempre foi o cinema. E um certo dia eu resolvi largar tudo e mergulhar de cabeça nessa arte – e com uma câmera na mão. Há 10 anos me dedico a fazer documentários com olhar feminino/feminista do mundo. Tarefa tão difícil quanto a do mercado financeiro. Engana-se quem acha que o meio artístico, em especial o audiovisual, é menos machista. Aqui a mulher ainda briga por seu espaço como protagonista à frente e atrás das câmeras. E eu sou uma delas – como eu já havia dito, gosto de desafios.

E nesse desafio diário venho aos trancos e barrancos fazendo o que amo, mas principalmente o que eu acredito – aí é onde entram os “trancos”. E acima de tudo, de forma livre – agora os “barrancos”. O feminismo perpassa tudo isso e virou a marca dos meus filmes. E da minha vida pessoal. Também sou militante feminista, líder, entre outras coisas, de um movimento que no Brasil ficou conhecido como Toplessaço. Para se ter uma ideia de como a minha militância e o meu cinema se misturam, recentemente fiz uma série para televisão que tinha o topless como pano de fundo para falar de liberdade e feminismo no Brasil. Meu trabalho mais autoral e que, por sorte, e muito esforço, consegui colocar em circuito comercial – sem abrir qualquer exceção em relação a sua fidelidade artística e militante.

Antes dele, todos os projetos também tiveram o foco na mulher. Como As Últimas Putas de Paris, documentário média-metragem, que correu o mundo em festivais; Maria e Seu Amor Bandido, um curta, captado precariamente por meio de um celular, mas que quase me custou a vida; e os projetos que estão em andamento – além do “#EleNão, #ElasSim”, sobre a histórica marcha Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, e o “Mulheres Por Lula”, sobre mulheres comuns que foram para as ruas pedir pela liberdade do ex-presidente Lula. E alguns outros que estão ainda tomando forma. Todos feitos de maneira independente, com recursos próprios, na paixão, na militância (o que não significa que eu não os pense também de forma comercial para que a mensagem alcance o máximo de pessoas) e ajude a transformar o mundo num lugar igualitário e para todos.

Meu corpo é político, meu cinema também. Porque não existe liberdade individual, sem liberdade coletiva.

Mais informações sobre os filmes nas páginas da FemFilm no Youtube e no Vimeo.

 As Últimas Putas de Paris, 2011

CURTA: As Últimas Putas de Paris, 2011

Sinopse:

Antigas prostitutas relembram fatos que marcaram um dos prostíbulos mais tradicionais do Rio de Janeiro, o Hotel Paris, na última noite antes de fechar. São histórias de prazer, amor, glamour e preconceito que por décadas deram vida aos 36 cômodos do prédio de cinco andares, estilo neoclássico, localizado na Praça Tiradentes.

Construído no início do século passado, o hotel foi testemunha das mudanças arquitetônicas e culturais de um Rio de Janeiro inspirado num modelo eurocêntrico.

Por ironia do destino, o decadente imóvel passará a abrigar um hotel de luxo francês.

Ficha Técnica:

  • Direção: Ana P. Nogueira
  • Produção: FemFilm
  • Direção de Fotografia: Tarica e Aguinaldo Quirino
  • Câmera: Tarica, Aguinaldo Quirino, Ronaldo Lobo
  • Som: Tarica, Aguinaldo Quirino, Ronaldo Lobo
  • Argumento: Ana P Nogueira
  • Montagem: Allan Ribeiro
  • Música: Paris (A. Berstein) Interpretada por Luiz Cláudio Pfeil

LABO O documentário As Últimas Putas de Paris conversa com 4 mulheres que trabalharam no Hotel Paris, um dos prostíbulos mais famosos do Rio de Janeiro. Elas falam sobre um tempo de luxo e glamour na prostituição. Você percebe alguma idealização nesse discurso?

Ana Paula Sim, e acho que esse discurso idealizado – que, na verdade, prefiro chamar de memória idealizada, em relação à profissão e a elas próprias – é a alma do filme. Especialmente porque ela contrasta em muitos aspectos com a atualidade, do lugar e delas. Vi ali uma forma de defesa de suas identidades.

Apesar de ter ido despida de qualquer preconceito em relação à profissão de prostituta (prostituição é assunto polêmico entre as feministas, e a discussão não caberia nem num longa-metragem), esperava trazer um filme com um viés mais histórico do lugar. Acabei me encantando com as “estórias” particulares e cheias de afeto das mulheres que trabalharam lá – e vi nisso a verdadeira essência do filme. Foi então, na montagem, com o olhar sensível do cineasta Allan Ribeiro, que o documentário de fato deixou de ser sobre o Hotel Paris e passou a ser sobre as “Últimas Putas”. O nome é um trocadilho, por conta da sonoridade, com o filme O Último Tango em Paris (apesar das ressalvas que tenho a esse filme). Definitivamente, As Últimas Putas de Paris não é um documentário sobre prostituição, ou sobre um prostíbulo, mas um filme sobre memória: a memória dessas mulheres, que decidimos embarcar sem qualquer questionamento ou juízo de valor.

No final da montagem, num letreiro, dedico o documentário a elas, às mulheres que existem na subjetividade dessas memórias.

LABO Como foi o processo de aproximação dessas trabalhadoras do sexo? Renata, Nina, Maria e Amanda foram escolhidas por qual motivo?

Ana Paula Eu contei com a produção prévia do Rona Neves (@ronaartista), que fez, algumas semanas antes da filmagem, a pesquisa de personagem. O hotel tinha, nessa última fase, uma rotatividade alta nos quartos que ainda estavam em uso. Muitas meninas que trabalhavam nas redondezas da Praça Tiradentes usavam o hotel para os programas.

Não tivemos muito tempo de preparação. Eu decidi fazer o filme quando morava em SP e li uma nota num jornal do Rio de Janeiro que o hotel iria fechar – a data era bem próxima. O Alexandre Tarica, diretor de fotografia, estava ao meu lado nessa hora e foi ali que decidimos fazer o filme. Desembarquei no dia da filmagem: só que fui para o Hotel Paris umas cinco horas antes do horário marcado com o resto da equipe para ir sentindo o clima do lugar e conhecendo as meninas. Chegamos para filmar, de fato, umas 7h da noite e saímos só ao amanhecer. Filmamos umas dez mulheres, mas acabamos na montagem focando nessas quatro, que tinham histórias mais repletas de memórias afetivas, talvez por serem as frequentadoras mais antigas. Também rolou muita sintonia da equipe com as meninas do filme – até hoje procuro por elas quando passo pelas redondezas do antigo Hotel Paris. A Renata participou, inclusive, no ano seguinte, de um curta de ficção premiado, A Dama do Estácio, que foi editado pelo Allan, (e dirigido por Eduardo Ades), que contou com a participação de prostitutas na vida real. Ela dividiu a calçada com a Fernanda Montenegro, que interpretava uma prostituta.

LABO E aí, o que tu nos diz sobre o mercado cinematográfico para as mulheres diretoras?

Ana Paula Ainda é um mercado machista, mesmo agora com o tema do feminismo tão em alta. Só que muito do machismo da atualidade é velado e sutil – pega mal ser machista, ainda mais num meio que se diz tão de esquerda e progressista né? Mas você ainda sente ele acontecer, mesmo quando se está chefiando e pagando o salário da equipe. Somos testadas, desacreditadas e desafiadas todo tempo, ora com uma ordem/decisão/opinião contestada sem justificativa, ora sendo tratada como incapaz ou “a que não sabe direito o que quer”, argumento muito usado por alguns homens do setor quando são contestados no seu “modo de operação” usual. Com As Últimas Putas não tive nenhum problema. Mesmo eu sendo a única mulher, era uma equipe pequena, de homens totalmente desconstruídos, seguros e extremamente profissionais e parceiros. O mesmo posso dizer da equipe principal de Rio de Topless, que contou com três homens já bastante experientes e com carreira reconhecida e premiada, o Luiz Rosemberg Filho, o Toca Seabra e o Carlos Alves. Me senti muito à vontade trabalhando com eles, foi fantástica a sintonia. Mas infelizmente não foi assim com toda a equipe masculina, especialmente os que não tive ingerência direta na escolha – e, talvez por isso, se achavam, (ou tentaram se achar), ‘os donos do pedaço’. Esse tipo de postura é bem desgastante porque, como eu afirmei acima, geralmente é feita de forma velada e sutil – e em alguns casos pelas costas. Mas não me arrependo de ter decidido trabalhar com uma equipe mista, mesmo essa série tratando de um tema tão feminino e sensível. Acho importante as mulheres exercitarem essa posição de comando.

Resumindo, ainda é preciso ter muito peito para ser mulher no audiovisual, especialmente quando fazemos trabalhos mais ousados. Mas os machistas que se cuidem, pois o que não falta, e não faltará, é peito para a mulherada do cinema.

LABO Plural Singular + Cardume

A LABO Plural Singular e a plataforma Cardume que, entre muitas outras coisas, têm em comum a missão de fortalecer a produção cultural no Brasil, estão virtualmente de mãos dadas para toda semana apresentar um curta-metragem nacional e uma nano entrevista com sua / seu respectiv@ diretora / diretor. Assim como dar nome a todas as pessoas envolvidas na produção cinematográfica brazuca, porque nem só de direção e elenco é feito um bom filme. Preparem o estoque de pipoca que informação e diversão são por nossa conta.

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