Curta: Canibal Tropical

Cinema #dubrasil

em 16 de julho de 2020

Nascido na cidade de Porto Alegre, RS, Guilherme Soares Zanella, 30 anos, formou-se em Realização Audiovisual pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo), com especialidade em Roteiro.

Em 2011 trabalhou como roteirista na websérie “Desconectados”, contemplada com o prêmio FAC-RS e veiculada pela plataforma online SundayTV e, posteriormente, pelo Canal Sony Brasil de Televisão. No ano de 2013 trabalhou na Revista CULT, em São Paulo, onde escreveu diversas matérias e resenhas.

Guilherme foi roteirista integrante do Núcleo Criativo da Casa de Cinema de Porto Alegre no ano de 2015, onde teve a oportunidade de apresentar o projeto de documentário “Cidades Fantasmas”, desenvolvido em parceria com Carolina Silvestrin e Tyrell Spencer.

Ele assina o roteiro do “Cidades Fantasmas”, longa-metragem documental produzido pela Galo de Briga Filmes em coprodução com Casa de Cinema de Porto Alegre, Globo Filmes e GloboNews, e série documental coproduzida pelo Canal Brasil. “Cidades Fantasmas” foi vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival É Tudo Verdade (2017) e Melhor Documentário no Festival Agenda Brasil (2018), em Milão.

É autor do argumento da série de variedades “Banquete: Experiências Gastronômicas”, veiculada pelo Canal de Televisão Band-RS no ano de 2016.

Seu roteiro de longa-metragem “A Vida Bruta dos Animais do Céu” foi um dos 10 contemplados com o ingresso no Laboratório Novas Histórias do Programa SESC SP/SENAC São Paulo, 2016. Teve a honra de figurar entre os finalistas do Concurso de Longa-Metragem do FRAPA (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre) e participou do Pitching Forum do Festival FEST – New Directors / New Films, em Portugal. O longa-metragem está em desenvolvimento na Abrolho Filmes e conta com Beatriz Seigner na direção.

Em 2019, criou junto com Jessica Gonzatto o núcleo de desenvolvimento de projetos Writer’s Room 51, também responsável por disponibilizar artigos e entrevistas com grandes roteiristas do mercado brasileiro. Em 2020, assina a direção do seu terceiro curta-metragem (junto com Jessica Gonzatto), “De Onde Eu Vim, Para Onde Eu Vou”, um documentário em processo de finalização.

Canibal Tropical

CURTA: Canibal Tropical, 2014

Sinopse:

Um sacrifício antropofágico de consumação totêmica.

Ficha Técnica:

  • Direção: Guilherme Soares Zanella e André Garcia
  • Roteiro: Gallo de Briga Filmes
  • Produção executiva: Tyrell Spencer
  • Direção de produção: Audrey Pereira
  • Direção de fotografia: Daniel Donato
  • Direção de arte: Gabriela Richter Lamas
  • Técnico de som: Rhian Berghetti
  • Montagem: Gabriel Honzik, Guilherme Soares Zanella, Tyrell Spencer
  • Elenco: André Garcia

LABO O trecho da carta Mundus Novus, 1501, de Américo Vespúcio, que dá início ao curta Canibal Tropical, fala em “antropofagia de vingança” por parte dos índios que aqui moravam. A escolha do tema foi por interesse histórico ou há aí uma crítica embutida?

Guilherme Para responder a essa pergunta, eu preciso trazer um ponto sobre a concepção do filme. “Canibal Tropical” nasceu de um estímulo criativo que surgiu em Porto Alegre, na sede da Galo de Briga Filmes. André Garcia, que assina a direção junto comigo, manifestou um grande interesse em elaborar uma performance onde ele precisava consumir um coração inteiro. Como na época eu estava fascinado por estudar rituais de consumação totêmica, pensei em uma maneira de trabalhar as metáforas por trás deste estranho ritual. No filme, a criatura que consome o coração parece pertencer a um outro mundo, é quase nórdica. Traz uma força colonizadora que destroça, que consome. A resposta a esse ato nós encontramos justamente na questão da antropofagia de vingança, que serve como uma metáfora artística também. Nós somos colonizados e eternamente influenciados por tudo o que vem de fora, mas o fazemos através da antropofagia – que, ao mesmo tempo, abate, mas também consome aquele totem para torná-lo parte de si. Para reforçar esse contraste entre a “invasão” dessa figura estrangeira e estranha e a nossa identidade como criadores brasileiros, trouxemos a música “Coração do Brasil”, de Jards Macalé. Gosto de imaginar a música como o canto do próprio coração, que canta de forma melódica em resposta à criatura que, pouco a pouco, vai perdendo sua civilidade. Com receio de ter fugido um pouco da linha proposta na pergunta, eu posso encerrar afirmando que, ao mesmo tempo que a ideia parte de um interesse histórico, há também uma crítica embutida. Essa crítica, porém, acredito que dialogue muito mais com um campo metafórico e geral das relações de poderes entre colonizados e colonizadores, mas não faz referência a qualquer evento histórico destacado. Acredito que a nossa relação ritualística com os totens que vêm de fora pouco mudou com o passar dos anos. Nós produzimos nossa própria cultura, temos nossas referências, somos nossa própria referência em muitas instâncias. Por outro lado, a influência estrangeira que ocupa nossos espaços de vida nunca perdeu a força. No Brasil, é muito inspirador ver como a gente lida com essas manifestações externas, às vezes intrusas, com essa força antropofágica. A gente traz para perto, consome nossas influências, as transforma em algo que já faz parte do nosso DNA e devolve ao mundo com muito da nossa força. Como criador, esse tipo de relação me inspira muito.

LABO Writer’s Room 51 é um núcleo de desenvolvimento de projetos audiovisuais. Apresenta pra geral o trabalho que vocês desenvolvem na plataforma.

Guilherme Writer’s Room 51 nasceu de uma vontade minha e da Jessica Gonzatto (minha sócia e parceira de vida) em criar um espaço para construir projetos de forma coletiva, sempre preservando as pulsões primordiais de cada um. Um espaço para criar, para debater com outros roteiristas, acompanhar o progresso de cada um, enfim… Um espaço muito inspirado em experiências que tive em Núcleos Criativos. Nos últimos meses a ideia cresceu. Hoje, além de uma carteira de projetos que desenvolvemos no nosso núcleo, também prestamos consultoria e disponibilizamos artigos sobre roteiro e entrevistas com roteiristas do mercado, sempre focando em tópicos que são do interesse do nosso público. Nessa caminhada, já conversamos com profissionais inspiradores, como Alice Name-Bomtempo, Nina Kopko, Rafael Leal e tantos outros… Por fim, eu sinto que a Writer’s Room 51 finalmente encontrou o seu propósito. Não é só um núcleo de projetos. Queremos construir um espaço para a criação coletiva, onde somamos forças, onde democratizamos informações, cedemos espaço para criadores que tenham artigos para compartilhar e, por vezes, até mesmo um grupo de apoio (risos). Por enquanto, somos uma plataforma digital e nossos encontros criativos são todos pela internet. Em um futuro próximo, gostaríamos de construir um espaço físico, quando for possível uma coisa dessas.

LABO O que tu nos conta do cinema produzido por mulheres no Brasil?

Guilherme Em primeiro lugar vale ressaltar que, como criadores, devemos sempre lutar por espaços mais democráticos e diversos. A nossa meta em todos os projetos nos últimos anos é construir uma equipe diversa e isso deve ser regra! Vemos mais e mais mulheres produzindo cinema no Brasil e isso é muito inspirador, deve ser celebrado e devemos ser agentes dessa transformação também (todos nós). Vejo muito disso na Jessica, minha parceira. Ela é uma roteirista e diretora excepcional, com prêmios e passagens por festivais bem importantes. Eu a considero uma diretora muito madura esteticamente. Por isso, a maioria dos meus projetos contam com a co-autoria da Jessica e estamos cada vez mais agregando mulheres realizadoras aos nossos trabalhos. No campo da inspiração, percebo muitas influências de autoras nacionais e internacionais no meu trabalho como roteirista, como Anna Muylaert, Alice Rohrwacher (influência máxima), Konstantina Kotzamani, que tem curtas maravilhosos com um olhar um tanto fantástico, como “Limbo” e “Electric Swan”, Ava Duvernay, que fez um dos documentários que eu mais gosto na vida “A 13a. Emenda”. Meus projetos em desenvolvimento também estão em ótimas mãos, conduzidos por mulheres de muito talento. Escrevi um longa-metragem de ficção autobiográfico que agora conta com a produção executiva da Laura Barzotto, da Abrolhos Filmes, além da direção da talentosíssima Beatriz Seigner, outra grande inspiração. Não é de hoje que temos diversas profissionais mulheres fazendo filmes incríveis. Elas sempre estiveram aí, mas ainda há muita resistência, por parte de alguns agentes da indústria, em democratizar seus espaços de criação. Isso mudou bastante nos últimos anos, mas ainda testemunhamos certas resistências que me fazem acreditar ainda mais no nosso papel coletivo de transformação.

LABO Plural Singular + Cardume

A LABO Plural Singular e a plataforma Cardume que, entre muitas outras coisas, têm em comum a missão de fortalecer a produção cultural no Brasil, estão virtualmente de mãos dadas para toda semana apresentar um curta-metragem nacional e uma nano entrevista com sua / seu respectiv@ diretora / diretor. Assim como dar nome a todas as pessoas envolvidas na produção cinematográfica brazuca, porque nem só de direção e elenco é feito um bom filme. Preparem o estoque de pipoca que informação e diversão são por nossa conta.

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