dolci

Arte #dubrasil

em 27 de maio de 2020

Fabricio Modesto Dolci, ou simplesmente dolci (assim mesmo, tudo minúsculo) é a prova de que, mesmo nos momentos mais tensos, delicados e perturbadores, como esse que estamos vivendo da pandemia do Coronavírus, a arte é uma válvula de escape, um instrumento de transformação.

dolci por dolci

Fabricio Modesto Dolci, ou simplesmente dolci (assim mesmo, tudo minúsculo) é a prova de que, mesmo nos momentos mais tensos, delicados e perturbadores, como esse que estamos vivendo da pandemia do Coronavírus, a arte é uma válvula de escape, um instrumento de transformação. O paulistano, nascido em dezembro de 1975 e registrado em janeiro de 1976, ao chegar à casa de seus pais adotivos, teria um histórico parecido com a maioria dos jovens classe média de São Paulo se não fosse um olhar voltado para arte, mesmo que inconscientemente. O primeiro trabalho foi em uma locadora de vídeo, talvez para ter mais acesso aos filmes que faziam sua cabeça; se arriscou na poesia em algum momento de sua vida, trabalhou como web designer e o último, antes da virada, foi fotografando cosplayers. Aliás, para dolci “fotografia já foi uma paixão, hoje em dia é um trauma, que, quem sabe um dia, eu consiga me livrar e volte a fotografar!”

Fabricio Modesto Dolci
Foto: Denardi Papini

Conheci Fabricio em 2009 e acho que nos curtimos logo de cara. Tínhamos muitos assuntos afins…lembro que na época ele usava um moicano que variava entre azul, rosa, laranja e ou descolorido, e eu achava o máximo. Nossos encontros, geralmente pelos botecos da rua Augusta, eram daqueles que duravam horas falando sobre música, cinema, shows, vida, OVNI’s… Fã de Nirvana (o único show que a banda fez em São Paulo, dolci estava presente), Nine Inch Nails, Sepultura (antes da saída do Max Cavalera), punk, Itamar Assumpção, música clássica, Slayer, David Lynch, Takashi Miike, Park Chan-wook, Pokémon Go, grafite… Os assuntos eram muitos.

Chegamos em 2020. O mundo enfrenta a construção de uma nova realidade. Estamos todos, ou quase todos, em distanciamento social. Algumas pessoas simplesmente estão vivendo o momento, outras seguem com seus trabalhos em casa, e tem aquelas que estão se reinventando. É nessa reinvenção que nasce o artista dolci. Ouso dizer que dolci já nasceu pronto.

A LABO Plural Singular assistiu ao nascimento desse artista, que chega com uma qualidade surpreendente, e fez uma nano entrevista com dolci, porque fortalecer a arte produzida no Brasil é uma das nossas missões. E quando acompanhamos isso em tempo real, nos sentimos na obrigação de trazer essa história para que também possa servir de exemplo.

Labo dolci, nos conhecemos há 11 anos, e confesso que fiquei bastante surpresa quando vi tuas pinturas no Facebook. E também com a maturidade da tua arte. Faz uma síntese desse início de relacionamento com tintas e pincéis e papéis, enfim, apresente-se enquanto artista:

dolci Bom, pouquíssimas pessoas, você inclusa, souberam o que realmente aconteceu comigo nos últimos 2 anos, nem minha família sabia e também acho que nem convém dizer, mas foram anos bem sombrios. Sumi da vida de todos, das mídias sociais, enfim. Um dia voltei pro Facebook pra postar algo e uma amiga minha (Ariel, a quem sou eternamente grato) percebeu que eu não estava bem e no meio da madrugada me mandou uma mensagem pra saber o que estava acontecendo e me recomendou o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que posso dizer que salvou minha vida. Isso foi no dia 13 de fevereiro de 2020.

Acordei cedo e não aguentando mais viver daquele jeito, acordei minha esposa (que também é uma pessoa que me manteve vivo esse tempo todo) e falei que estava indo pro CAPS.

Comecei o tratamento para depressão no mesmo dia, pois dei sorte de a psiquiatra do local ter um horário livre. Um mês depois (no próprio CAPS) tive que escolher 2 atividades para fazer semanalmente e uma delas era uma Oficina de Artes. Cheguei lá sem noção do que iria acontecer e o monitor da oficina soltou uma tela na minha mão e algumas tintas e falou pra eu me sentir à vontade pra fazer o que eu quisesse. Fiquei meia hora olhando pra tela em branco sem saber o que fazer até que surgiu uma ideia de pintar um Pikachu, que nesses 2 anos sombrios, uma das únicas coisas que me mantinha são era jogar Pokémon Go em algum momento do dia. Sai de lá renovado, com vontade de voltar toda semana pra pintar uma tela. Infelizmente na mesma semana o CAPS cancelou todas as atividades que não fossem consultas, por conta da pandemia. Bateu um pequeno desespero, mas tive a ideia de, no mesmo dia, correr até uma loja (pois já estava anunciado que tudo fecharia dali a 2 dias) e comprei muitas tintas, telas, pincéis etc. E desde então (há 2 meses) tenho feito praticamente uma pintura por dia, ou a cada 2 dias, enfim, quando bate aquela vontade de me expressar e me distrair um pouco de todo esse caos que estamos vivendo!

Labo O cinema, a música, a fotografia, sempre estiveram presentes no teu cotidiano, porém a arte plástica parece que é algo novo. Antes dessa virada, quais eram os artistas que te chamavam a atenção? E nesse momento, quem é que te inspira?

dolci Essa pergunta me fez pensar em algo que eu era como fotógrafo. Sempre gostei de causar algum desconforto com meu trampo, no caso do meu projeto favorito, o eugnas, que eram fotos sangrentas!

E acho que esse desconforto é imagem do que eu sempre gostei de assistir e ouvir. Adoro David Lynch, Nine Inch Nails, assistia a muitos filmes bem perturbadores, passando por filmes de Gaspar Noé, alguns filmes orientais, que normalmente têm muita violência, vingança e sangue, até ‘Serbian Film’, que posso considerar um dos filmes mais perturbadores que já vi!

Quanto à pintura, algo totalmente novo pra mim, que nunca nem desenhei nada, não sei dizer que artistas me inspiram. Na verdade, o que me inspira são as pessoas me elogiando e querendo comprar minhas artes (que faço pra mim mesmo) e saber que algo que estou fazendo como terapia, está agradando aos outros!

Sempre fui de querer desagradar e hoje em dia vejo que estou em uma vibe um pouco diferente, mais light, mas ao mesmo tempo colocando todo o ódio que tenho dentro de mim, sutilmente, nas minhas pinturas!

Fabricio Modesto Dolci
Foto: Denardi Papini

Labo Tu és um artista que está brotando num mundo em transformação. Provavelmente a arte já está sentindo esse reflexo. Tens algum palpite do que vai acontecer daqui pra frente nesse universo?

dolci Acho que a arte sempre foi muito importante para que o mundo seja como é. Se não foi importante para o público em geral, pois muita gente não se liga em arte, foi muito importante para o próprio artista. Eu mesmo faço minha arte para mim, se gostarem ok, se não gostarem, ok também. Vou até aproveitar esse meu sentimento para deixar uma poesia que fiz uns 20 anos atrás:

“regurgitando palavras sem nexo
este ser simples-complexo
que se considera um poeta
e não tira o cu da reta
quando é preciso escrever
ele não quer nem saber
se as pessoas vão gostar
ou simplesmente odiar
ele só quer se divertir
sem ter pra onde ir
e às vezes por muito pouco
é considerado muito louco
em uma estrada perdida
que dita o ritmo da sua vida…”

Não sei (acho que ninguém sabe) como serão nossas vidas daqui pra frente, durante e depois dessa pandemia, mas acho que a arte já salvou e ainda salvará muitas vidas, assim como está salvando a minha!

O artista dolci (com letra minúscula mesmo) nasceu no início da pandemia. Ele encontrou na arte a fonte de luz e respiro para passar por esse período de uma forma leve, e também para enfrentar seus próprios monstros. A arte de dolci é colorida, lúdica e #dubrasil!

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