Imaginários Urbanos

Cinema #dubrasil

em 14 de maio de 2020

O documentário Imaginários Urbanos, rodado em Maceió no pós golpe de 2017, nos leva a fazer uma reflexão sobre arte / corpo / espaço urbano. Um grupo de artistas e pesquisadores sai pelas ruas e bairros menos favorecidos da cidade em busca das relações afetivas com o espaço público.

Imaginários Urbanos, a arte de coexistir

O que acontece durante os 24 minutos do curta é uma movimentação constante entre os habitantes desses espaços e as intervenções artísticas que estão presentes em nossas vidas no cotidiano das cidades: Como estas intervenções nos atingem? Quais os tipos de provocações? Quanto essas performances nos aproximam do urbano?

Para Jasmelino de Paiva, autor da crítica publicada no site Alagoar, sobre o filme: “O curta tem como premissa a relevância social da aproximação entre as diversas formas de expressão humana e os espaços que são habitados. Em termos práticos, não há como separar o sujeito do espaço, pois os dois se retroalimentam, especialmente numa conjuntura urbana. É através da arte, partindo do recorte da obra, que as contradições são postas às nossas caras. Ocupar, transitar e dialogar com os espaços e com os sujeitos é o que é sugerido plano após plano. Porque somos frutos do meio e como tais somos afetados por ele na mesma medida que o afetamos.”

A LABO Plural Singular fez uma nano entrevista com o diretor de Imaginários Urbanos, Glauber Xavier, para falar sobre o lançamento on-line do curta que desde a meia noite de ontem, 22 de abril de 2020, está aberto para visualizações e fica disponível até a meia noite do dia 27 do mesmo mês. Depois dessa data, o curta ficará hospedado na plataforma Cardume. Puxa a cadeira e fica à vontade!

Assista o teaser de Imaginários Urbanos

Labo Glauber, o tempo do cinema faz com que as obras atravessem momentos distintos em nossas vidas, desde a concepção até o seu lançamento. Imaginários Urbanos foi produzido em 2017, um ano bastante ‘quente’ para nosso país. De lá pra cá o filme circulou em mais de 20 mostras e festivais nacionais e internacionais, dentro e fora do Brasil. Somente agora em 2020 o filme está sendo lançado e disponibilizado on-line gratuitamente. Tem um porquê desse espaço entre produção em 2017 e o lançamento on-line em 2020? E de que forma essa nova condição de pandemia do Covid-19 desloca o discurso do filme?

Glauber A carreira de um filme me parece sempre ser algo razoavelmente imprevisível. Quando se trata de curtas e médias metragens essa imprevisibilidade é ampliada, talvez pelo baixo e muitas vezes nenhum poder comercial depositado sobre as obras. Então é natural que estes filmes busquem soluções diversas e criativas para suas carreiras. A participação em festivais e mostras pode ser explorada principalmente nos dois primeiros anos de trajetória. Após este período o filme deve encontrar formas de continuar vivo.

No caso de Imaginários Urbanos a distribuição obedeceu a esta lógica, somando-se a exibições em salas de aula, eventos acadêmicos e cineclubes. O distanciamento entre o lançamento pós golpe de 2017 – onde o filme provocava artistas a habitarem os espaços públicos como ato político e disputa das narrativas urbanas – parece maior em transformação distópica do que o tempo “real” cronológico. O país tem sofrido uma carga demasiada de desinformação, desmonte institucional e corrosão do aparato democrático. Os sentidos e substância de identidades, cultura e até das palavras parecem ameaçados. Fatos da realidade vivida e convicções fruto do conhecimento científico se deterioram, talhados estupidamente pelo desgoverno assíduo em sua lunática guerra ideológica, fetiche pelo massacre de minorias menos favorecidas e idolatria por uma ampliação das desigualdades sociais. Hoje nosso ato criativo e político não é mais caminhar pela cidade. Pelo menos, por um tempo – indeterminado. Hoje o filme gostaria de gritar: “Fiquem em casa!” O direito à rua está temporariamente reservado a uma pequena gama de guerreiros capacitados para isso e outros indivíduos que, abandonados pelo Estado, carecem da oportunidade de estarem abrigados em uma casa.

E o Cinema? Vive o momento mais atípico dos últimos 120 anos. As salas estão fechadas e as produções desta arte, extremamente coletiva, estão paradas pela necessidade do isolamento social. Ao mesmo tempo, o audiovisual está, cada vez mais, sendo consumido graças aos avanços das tecnologias de streaming. Os conteúdos estão muitas vezes sendo exibidos em diversas telas simultâneas nas ruas e em todos os cômodos das casas das pessoas. Por outro lado, temos que considerar que muitos destes conteúdos ganham novos significados a partir das experiências que estamos vivendo em nosso confinamento.

Imaginários Urbanos é um exemplo de discurso deslocado neste curto espaço de tempo, pois em sua narrativa somos convidados a ocupar as cidades, tendo o simples caminhar como um ato político que desafia as fronteiras postas pelo medo da violência urbana e do apartheid social de uma urbe cada vez mais segregada em prol de uma cidade de “plástico” desumana e guiada por interesses econômicos, como é o caso dos processos de gentrificação que expulsam os habitantes menos favorecidos de seus espaços para dar lugar a empreendimentos de alto custo de bens e serviços.

Neste momento, o discurso do filme é desafiado pelo medo do vírus invisível que desafia o próprio sistema – atraído por processos de interesses exclusivamente econômicos. Acredito que a disputa narrativa proposta no filme ganhe maior urgência após este período de reflexão entre o humano e capital econômico; e que a arte continue exercendo, neste futuro próximo, seu talento em reinventar mundos e linguagens.

Labo Maceió é uma capital que ainda preserva um espírito bastante provinciano, de pouca valorização da cultura local. Como construir um olhar voltado para a arte, de observação constante de todas essas narrativas que a cidade oferece? Como despertar o interesse de seus moradores para desenvolver um pensamento crítico através da arte?

Glauber Acredito que, no seu cerne, a arte urbana carregue consigo um certo estigma marginal, por provocar ruídos e suspensões no fluxo da urbe. Neste sentido, presumo que as experiências artísticas de rua em uma cidade como Maceió, não se diferenciem tanto das executadas em grandes centros, pois a quantidade destas experiências parece ser semelhante em relação ao número de habitantes de cada cidade. Então a construção desse olhar é constante por toda parte, mas creio que o interesse por um pensamento crítico só pode ser ampliado através de ações educativas no campo formal e informal. A Arte na escola pode ser um atalho, mas só se estas manifestações artísticas forem praticadas com um pensamento libertário onde se reconheça cada indivíduo como potencial criador e emissor de sentido, capaz de exercer reflexão e opinião crítica.

Labo Nesse momento de transformação pelo qual o planeta está passando, especialmente em tempos de distanciamento social, provavelmente será preciso ressignificar muito do que conhecemos enquanto modelo de sociedade. De que forma seria possível as intervenções urbanas atuarem na formação de um outro modelo de sociedade? (se é que você acha isso possível)

Glauber Acho muito cedo para sabermos a profundidade de ressignificação que esta pandemia irá provocar nos próximos meses. Não acredito que seremos capazes, ainda, de reconhecer realmente, que a direção de uma sociedade capitalista seja a de um mundo de escassez, inaceitável em termos ecológicos e humanistas. Mas ao mesmo tempo, reconheço que o ruído causado pelo Covid-19 servirá de ponte para despertar poderosos levantes na construção de um pensamento mais digno para a sociedade mundial. Vejo um horizonte de crise para os indivíduos que se reconhecem como artistas. Uma crise multifacetada que poderá redesenhar o valor e o significado da arte, sobretudo da arte da presença e também um reconhecimento renovado do poder do audiovisual numa esfera global cada vez mais interligada digitalmente.

Você também vai gostar disso 👇