Marília Calderón: a braba que canta, encanta, faz poesia e ainda nos faz refletir.

Música #dubrasil

em 11 de janeiro de 2021

“Cantam os poetas mais delirantes que nossa libido não tem governo nem nunca terá, sendo possível nos apaixonarmos, estarmos em grupo e agirmos coletivamente, mantendo ao mesmo tempo nosso pensamento crítico, sensibilidade e singularidade.” – Marília Calderón 

Marília Calderón

A cada nova descoberta uma certeza: o Brasil é bom! Marília Calderón é artista para ouvir, ler, sentir, refletir. Cantora, compositora, psicanalista, atriz, cientista social, pós graduanda em Canção Popular e coordenadora do projeto “Canção no Divã”. Um ser pensante / criativo que espalha sua arte e suas ideias pelas ruas e metrôs da cidade de São Paulo. Além de usá-las como instrumento transformador.

Tudo começou quando Pablo Nomás, da Teko Porã, banda da qual Marília participou e gravou o EP “Teko Porã”, sugeriu como pauta, à época do lançamento do single ‘Romance da América’, “canção inspirada da nueva canción latino americana. Fala da truculência policial que deixou vários manifestantes cegos durante a onda de protestos no Chile em 2019 e presta homenagem a Victor Jara, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet, e a todes que sonham e lutam por uma sociedade mais igualitária”. A escolha do tema era parte da recompensa na campanha de financiamento coletivo do álbum de estreia da cantora, e foi Mário Vicente, o benfeitor, que sugeriu uma canção que falasse sobre a América Latina.    

Logo após o lançamento do single, Marília trouxe ao mundo o fofíssimo clipe de “Canção de Nina”, faixa do primeiro álbum autoral, “A saudade é um vagão vazio”, lançado em 2020. Um disco sobre “música brasileira, saudade, lutos e lutas”.

Ao explorar o trabalho da artista, várias camadas vão sendo desvendadas pois Marília Calderón aplica todo seu conhecimento, enquanto cientista social, nas letras, poesias, crônicas e contos, propondo reflexões sobre sociedade, lutas e direitos, tudo isso misturado aos ritmos do cancioneiro popular, que ela conhece muito bem.

ser humana 

e se tuda fosse falada na feminina 
tipa a “História da Mulher”, da “Ser Humana” 
será que toda munda 
ía levar numa boa? 
 
cam certeza íam dizer que eu tá maluca 
forçanda a barra à beça 
esquecenda, talvez, 
que a gente já tá nessa 
 
só que ao contrária 
quera dizer, na masculina, 
que nã é contrária, 
é só diferenta 

Sim, fiquei fã da artista que transcende à linha do entretenimento ao usar a arte como causa de vida. Leiam a nano entrevista que nós, da LABO Plural Singular, fizemos com a querida Marília Calderón.

LABO Marília, obrigada pela oportunidade. Conta pra nós como foi lançar o primeiro álbum autoral, alguns singles e três videoclipes, em meio à pandemia e como essa eterna quarentena modificou, ou não, a tua visão a respeito da produção cultural. 

Marília Calderón Eu que agradeço o espaço! Lançar em meio à pandemia foi um pouco esquisito, por não poder sentir a presença física das pessoas e estar realizando o sonho de parir meu álbum em meio a tanto luto. Mas foi também muito bom, por me manter em laço com pessoas queridas que estiveram, mesmo fisicamente distantes, muito presentes em minha quarentena, e também com a arte, sempre fundamental na manutenção da minha saúde mental, sobretudo em períodos difíceis como este. Sou grata por ter conseguido lançar o álbum, ter conseguido um edital pelo Sesc e ter ganhado até um prêmio, pelo curta-show que fiz pra esse edital, com a artista visual Iza Guedes. Tudo isso me trouxe poesia e alegria, quando estava mesmo precisando. 

Esta quarentena modificou minha percepção da realidade como um todo, não apenas a respeito da produção cultural. Sobretudo, percebi que não é mais possível para mim viver nesse Brasil, e nesse mundo, sem engajamento político num sentido mais profundo. Há muitos anos sou mobilizada pela política, inclusive me formei em Ciências Sociais, mas este ano senti necessidade de me comprometer mais com o desejo de transformar as coisas, e resolvi me assumir marxista e me filiar a um partido político. A produção cultural entra nisso porque de agora em diante meu foco é produzir uma arte que seja capaz de transformar as pessoas que, por sua vez, sejam capazes de transformar o mundo. E isso certamente muda minha maneira de compor e de produzir. 

LABO Você foi integrante da Teko Porã durante vários anos, uma banda de buskers ou artistas de rua. Como foi a experiência, enquanto mulher, de tocar na rua? 

Marília Calderón Engraçado como a palavra “mulher” tem me gerado um estranhamento. Acho que em função de leituras e conversas que tenho tido, sobretudo com a Iza Guedes, a parceira artística da qual já falei, que é não binária e me ajuda a questionar se também não sou. É esquisito me considerar “mulher” por conta de um monte de performance de gênero construída a partir do meu sexo, quando certamente tenho características tanto chamadas “femininas” quanto “masculinas”. Mas de fato sou lida na sociedade, em função de minha aparência e performance, como mulher, e com isso vem toda a opressão de gênero que nós, que não somos homens cis, sofremos. Tocando na rua e nos metrôs, para falar a verdade, não percebi esta opressão ser maior do que em qualquer outra parte onde estive. Aquela coisa: se você está com um homem cis, é a ele que se dirigem primeiro, tanto para perguntar do trabalho quanto qualquer outra coisa; também no chapéu, ganhamos menos; assédios acontecem; descréditos, etc. Isso que acontece em toda parte e muito mais ainda com mulheres ou pessoas de gêneros dissidentes ou pretas ou indígenas, infelizmente. 

LABO Depois de um ano tão louco como foi 2020, começar um novo ano dá um certo alívio. Quais seus planos, para esse 2021, já que, além de cantora e compositora você é atriz, professora, estudante e, pelo que percebi, um ser humano que acredita no poder transformador da arte? 

Marília Calderón Meus planos para 2021 são: sobreviver; dar aulas particulares de música; estudar e politizar-me muito; terminar a pós graduação que estou fazendo em Canção Popular; seguir adiante com o Canção no Divã, espaço que criei e coordeno, dentro do projeto Pluralidades, em que discutimos canção, política e psicanálise; criar um curso coletivo sobre esse mesmo assunto; lançar uma campanha de financiamento coletivo contínuo para compor canções de luta, que se chamará Canção na Trincheira…e já tá bão rs. Um 2021 cheio de realizações e transformações pra gente! Muito obrigada pela entrevista e parabéns por esse projeto generoso e bonito 😉 

Você também vai gostar disso 👇