Mental Abstrato

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em 11 de maio de 2020

O nome Mental Abstrato define perfeitamente o som da banda. O abstrato – as influências mais diversas – entra em confluência com o mental através dos beats e do pensamento crítico. O berço é a ‘quebrada’, a fonte é a música que se aprende em casa e nas ruas. Oriundos do hip hop da década de noventa, quando o gênero absorve as investidas do jazz, a banda nasce da necessidade de comunicar que algo novo estava acontecendo. Pioneiros no que eles mesmos definem como “o encontro da essência do jazz contemporâneo com o hip hop no Brasil”

Em 2018, oito anos após o primeiro EP, eles lançaram o ousado álbum Uzoma, que funde drum machines com instrumentos analógicos. O álbum passeia pelo rap jazz, mas sem abrir mão da geleia geral brasileira. Além de Omig One (percussão e beats), Calmão Tranquis (beats) e Guimas Santos (baixo e bateria), o álbum traz os arranjos e a produção do saxofonista Marcelo Monteiro e Thiago Duar (que também faz parte da nova formação da banda) além de outras participações especiais. Num agradável papo que tivemos no centro da cidade de São Paulo, eles contaram para a LABO Plural Singular um pouco dessa história.

Num agradável papo que tivemos no centro da cidade de São Paulo, eles contaram para a LABO Plural Singular um pouco dessa história

Labo Em 2018, vocês lançaram o álbum Uzoma, que, em Igbo (língua falada na Nigéria), significa “o bom caminho a ser percorrido”. Quais caminhos cada um de vocês percorreu até chegar ao som que fazem hoje?

Omig One É uma caminhada longa. Acho que começa tudo com as andanças que eu acompanhava. Os mais velhos da família mesmo. Meu pai não era músico, mas tinha uma ligação com o cinema, com as artes, e também conhecia muitos músicos da época dele, da vanguarda paulista: Itamar, Bocato… e, ao mesmo tempo, também tinha o lance da nossa essência familiar mesmo, que era o lance da ancestralidade preta, da macumba, do samba de terreiro, que era as ‘parada’ que tinha em casa; as ‘batucada’ em casa.

O meu avô era um grande sambista da época da Nenê de Vila Matilde. Minha família sempre teve essa ligação com escola de samba. skate também é um grande guia, tanto do meu estilo de vida, de música, de arte, de pensamento também. E sempre a música esteve ao lado. Principalmente o hip hop, a cultura de rua, o hardcore… a gente vem dessa mesma geração. A gente fala dentro do hip hop, até mesmo na cultura urbana, que é a “geração 90”. A gente montou um grupo, na época, chamado MDI (Munidos De Informação), um rap bem politizado mesmo. Naquela época, quem tinha uma MPC (drum machine), era alguém que tinha grana, tinha ido na ‘gringa’, conseguiu trazer e pagou muito caro. Computador, também, não era todo mundo que tinha, né? Era o mais ‘pleiba’ da banca que tinha um computador. Esse grupo (MDI), até por questões de evolução de ideias, de pensamento também, ele mudou (de nome) pra Primeira Audição. É um grupo que virou até meio quase lenda… era bem nacionalista mesmo, tanto que Primeira Audição era o nome de um programa de bossa nova que tinha na época, que a Elis Regina apresentava, e a gente era, mano, aficionado pela bossa nova, samba jazz… a gente era ’febrão’, e aí o Primeira Audição era isso: samplear bossa nova. Tinha essa influência do jazz, mas era bem rap com bossa nova mesmo. O Mental surgiu um pouquinho depois disso.

Thiago Duar Meu avô tocava bandolim, e essa coisa da família também foi uma possibilidade pra mim. Essa coisa de olhar o meu avô tocando bandolim, foi me alimentando desde pequeno. Ele tocava muito chorinho. Teve uma época que eu desencanei de música e ouvia muito ,reggae: Bob Marley, Gladiators, Gregory Isaacs. Por causa do reggae eu falei “meu, então vou estudar!”. Aí comecei a pegar os acordes, a tirar uns sons assim… e aí resolvi estudar. Acabei indo estudar na ULM – Universidade Livre de Música, que agora é a EMESP, e aí, lá, meio que mudou a minha vida, eu encontrei um mestre baiano, que se chama Mou Brasil, e ele me ensinou como ser um músico, como ser uma pessoa e somar no mundo. O Mou foi uma escola pra mim, tanto no jazzistas, na música brasileira e essa influência afro-brasileira, que a Bahia é berço de muita coisa, né? Então a gente tinha aulas de improviso com Caymmi, Coltrane, Thelonious Monk e muita música brasileira.

A história é muito longa né, de influências assim, mas eu me vejo hoje assim… um músico que evoluiu muito das linguagens de rua, seja o punk, seja o ,reggae, o hip hop. Meu primo, que me apresentou o ,reggae, tinha dois discos: o Illmatic, do Nas e o Tribe Called Quest, ‘o dos predinhos’ (Beats, Rhymes and Life), que eu achava que era um disco de ,reggae por ser vermelho, dourado e verde. Profissionalmente, eu comecei num grupo com um compositor de Fortaleza chamado Gil Duarte, que chamava Gil Duarte & Projeto Asimov, e aí eu meio que fazia guitarras e samplers, fazia os beats, e, nessa época, a gente meio que já tinha o Mental (Abstrato) como uma certa referência, mas eu não conhecia eles, conhecia o som. Com a evolução do projeto, rolou essa ponte e eu conheci os meninos e tal.

Labo Além da música, as questões sociais foram uma porta de entrada no hip hop pra vocês?

Omig One Sempre será, né? O hip hop nasce disso, da voz da quebrada mesmo. Naquela época, também. Era a referência que a gente tinha na época, de compor e “o que é que eu vou dizer?”. O que a gente tinha a dizer, no momento, ‘tava’ mais em cima da questão social. Não que não esteja até hoje. Hoje é até mais necessário, né? E é uma coisa que se perdeu muito assim, né? Você vai ver hoje as letras de hip hop da galera que tem, até mais novos do que a gente era naquela época, e é muita ideia de festa, ‘chapação’ e tal… e o conteúdo com mais profundeza aí mesmo, em outras questões, já se foi, né?

Labo Na década de 90 Miles Davis lançou o álbum Doo Bop com Easy Mo Be, Bill Evans lançou Escape, Us3 lançou Hand On The Torch. Os jazzistas estavam caminhando em direção ao eletrônico, e o eletrônico caminhando em direção ao jazz. De qual lado vocês estavam nessa época?

Omig One Nessa época aí, eu tava de ouvinte. O jazz mesmo, eu nem flagrava nada. Eu fui conhecer o jazz através do hip hop. Através desses caras que estavam bebendo da fonte do hip hop, é que eu fui conhecer o jazz. Isso que é muito louco dessa cultura de beat maker, é que,pra você fazer um som e samplear, você tem que fazer uma pesquisa do caramba. Hoje você garimpa melhor na internet, mas antigamente não era tudo que tinha digital. Tinha que ir pro sebo, fazer aquela pesquisa louca. É uma aula, né véio? É um estudo, na verdade. Mas como ouvinte de som, eu tava mais do lado do rap mesmo.

Thiago Duar (Se dirigindo a Omig) Você já sabia, na verdade, né? Quando você conheceu o original, você falou “puta, eu já conheço porque tal artista sampleou…”. Esse diálogo do sampleador com o rap, ele tá sempre ligado. É uma coisa de educação. Como na Jamaica você tem o sound system, como nos povos antigos você tem a fala, o hip hop traz essa linguagem pelo som. Porque a mídia não mostra tanto a realidade da comunidade, de uma sociedade ou de um povo que não está sendo falado, e o rap, ele é uma palavra, né? Você tem poder. Além da letra, que é a mensagem crua, você tem a pedra bruta, o som, a história… de onde veio aquele sample. Você acaba incorporando tudo isso. Por isso que o hip hop é uma escola pra todo mundo.

Omig OnePure Essence (primeiro EP) nasce disso. A gente virava a noite fazendo beat ali, conhecendo gente do mundo inteiro através do soulseek (rede de compartilhamento de arquivos). Eu discotecava nessa época. Tinha uma festa que era eu, o dj King e o dj Marco (que tem a Discopédia, tocou com a Soja), uma lenda do rap. Eu fazia o som no lounge, o King e o Marco faziam na ‘pistona’. No baile, você tinha que tocar um som que agradasse a todo mundo; mais dançante. E no lounge eu tinha carta pra fazer o que eu quisesse. Muitas vezes, era  engraçado porque o lounge ficava bombado. A galera queria ficar mais no lounge do que na ‘pistona’. Um parceiro meu levou o Calmão um dia lá. Falou “mano, cê tem que conhecer esse cara, que o estilo de produção dele é o mesmo que o seu!”. Eu conheci ele lá, viramos ‘irmãozão’. Começamos a trocar uns beats. A gente ficava até cinco da manhã aproveitando a internet de graça. Foi uma energia muito forte que a gente teve naquele momento, da troca… e a gente tinha consciência que a gente tava sozinho, porque ninguém tava fazendo esse tipo de som naquela época, e o que a gente tava fazendo, tava no mesmo nível das paradas gringas que a gente tava ouvindo. Eu falava “mano, aqui a gente tá perdido, véio! Não conheço outras pessoas que estão fazendo isso que a gente faz, tá ligado? Vamos juntar o trampo, umas seis músicas, e vamos tentar soltar na gringa!”

Labo E vocês soltaram no Japão…

Omig One Sim. A gente selecionou, acho que foram seis sons. Foram quatro beats, se não me engano, e duas interlude (música composta de um ou mais movimentos, a serem inseridos entre seções de outra composição), e causou um impacto muito forte. Quando a gente colocou a parada ali, surgiram várias propostas pra gente. Selos do mundo inteiro. Europa, Japão e tal… só do Brasil que nunca deram moral (risos). A gente tentou procurar na época, mas ninguém nunca deu bola pra gente. Aí os japoneses piraram no som. Aí foi que aconteceu de lançar o disco no Japão. Foi aí que a gente ganhou uma moral fora. Quando se fala de rap jazz, assim, se for pesquisar, o Mental sempre vai estar ali listado. Nunca colamos no Japão e já tem outro disco. O Uzoma foi lançado no Japão também, e os japoneses amam a gente até hoje, meu.

Labo Uzoma tem menos samples e mais instrumentos orgânicos. Esse processo de criação foi mais mental ou mais abstrato?

Omig OnePure Essence era praticamente tudo sample, né? Teve baixo, guita, mas oitenta por cento ali era sample e umas paradas de sinth (sintetizador) que a gente tocava. Como foi amadurecendo, a gente falava “mano, a gente tem que conseguir tocar isso de uma maneira mais orgânica, pra gente conseguir fazer o show, ter um formato de performance ao vivo. Quase dois anos depois que saiu o disco, um parceiro nosso que é até cineasta – a gente estudou cinema junto, eu venho do cinema também -, ele não sabia o som que eu fazia e quando ele escutou o Pure Essence falou “mano, vocês têm que tocar! Vocês têm que estar juntos com essa galera aqui”. Tava começando esse movimento da nova cena da música brazuca, principalmente aqui em São Paulo. Era a época do Studio SP (casa noturna) e tal… ele falou “mano, vocês têm que estar com essa galera aí”! Ele foi quem deu o empurrão. Ele deu o start de juntar. E a gente falou “caramba, e agora, como que a gente vai tocar, mano?”. E a gente teve que aprender a reestudar as músicas do Pure Essence. E foi assim que foi surgindo… o Uzoma acho que veio disso. Da transformação do Pure Essenceao vivo, e de como a gente se achou, porque demorou também pra gente achar esse formato, essa forma da gente fazer música foi um aprendizado… foi amadurecendo, né? A gente tinha inscrito num edital, na verdade… ia ter mais convidados, ia ter grana pra pagar todo mundo, e acho que a gente colocou ali duas opções de produtores que a gente se identifica, que a gente gostaria que fizesse a direção e produção musical. Como a gente não contemplou o edital, não tinha grana para produção. A gente falou “mano, a gente vai ter que fazer a parada entre a gente mesmo”. Aí o Beto Montag (músico e professor) também… a galera conhece bastante gente… têm conexão lá no Red Bull Studio. A gente mandou um projeto, os caras gostaram, aprovaram, cederam dez dias pra gente gravar lá.

Thiago Duar O Beto também tocava no Mental…

Omig One A gente tinha montado um núcleo inicial ali dentro. O Beto Montag e o Thiago iam ficar dirigindo as ‘harmonas’ e o Marcelão (Monteiro) ficou na função de reger os arranjos dos metais, tanto que as partituras, ele que escreveu todas. Foi esse processo conjunto: os dois e o Mental ali no estúdio dirigindo a galera e fazendo aquilo que a gente tinha pra fazer ali.

Labo Dentro desse universo de música brasileira que permeia o som de vocês, eu queria fazer uma pergunta que a gente sempre faz: o que é o Brasil?

Omig One O Brasil é uma terra grande e linda, né meu? Fértil pra caramba. Só falta um pouquinho mais de consciências, de mais amor, mais cumplicidade geral no coração das pessoas, e se entender como brasileiro mesmo! Acho que é isso, né? O país de um futuro. Sempre esperançoso. Na esperança de dias melhores. A única coisa que falta aqui mesmo é mais respeito pela educação. Mas é um país maravilhoso. Cultura tem de muito, né? Mas educação… é escasso de educação, e é isso que destrói o nosso país.

Gente, muito obrigado a vocês e até a próxima.

Créditos

Entrevista por Cássio Calazans é produtor musical e audiovisual, comunicador e roterista.

Filme por Luan Cardoso é o responsável pela criação da produtora de cinema Quixó Produções fundada em 2010. Atualmente, encontra-se em processo de pós-produção de seus dois primeiros longas-metragens: a Ficção Ménage e o documentário Summer Long, sobre a gravação do disco da banda Mombojó com a francesa Laetitia Sadier.

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