Monica Lewis e a prática artística desenvolvida para ajudá-la no processo de autoconhecimento

Arte #dubrasil

em 29 de janeiro de 2021

A década era de 80, vivíamos sob o regime militar e aquela falsa impressão de que tudo estava em ordem (empregos, salários garantidos, casas, carros, televisões e essas parafernálias da ‘vida moderna’), mascarava o que somente hoje estamos colhendo, entendendo e tendo a possibilidade de mudar. Éramos crianças felizes, com uma vida pacata, comida na mesa, escola e muito tempo para brincadeiras. Hoje adultos, fazemos reflexões e vemos o quanto isso nos afetou ou ainda afeta. 

La Ursa

A professora e artista Mônica Lewis usou a arte como instrumento de autoconhecimento e fez uma pesquisa científica para entender aspectos de sua personalidade que foi moldada nos anos 80, ainda quando estudante. “Durante sete meses, escrevi reflexões em diários e produzi obras de arte como respostas ao que estava acontecendo em minha vida, facilitando uma forma de revisitar o passado, compreender o presente e atuar no futuro.”

A La Ursa, tradição no carnaval pernambucano, tem sua origem nos ciganos da Europa que percorriam as cidades com os animais acorrentados que dançavam de porta em porta em troca de alguns trocados. No Brasil, a La Ursa chegou no século XIX com imigrantes italianos e ciganos ligados ao circo, popularizando a imagem da ursa na cultura nordestina. Foi usando essa imagem que Mônica colocou sua prática criativa em um processo de pesquisa. Vocês devem estar se perguntando do porquê da La Ursa…  

A emergência da voz de um artista

A artista usa o urso como uma metáfora. “Comecei uma narrativa enérgica com o Urso, o que me permitiu explorar minha arte como linguagem, performance e fonte de conhecimento. Isso me permitiu examinar o fenômeno delineado no título da minha dissertação: A emergência da voz de um artista: implementando as artes visuais como método de pesquisa para apoiar as transformações profissionais. Este estudo é relevante porque muitas pessoas e grupos se identificam com o fato de não ter voz ou ser ouvidos. Esperançosamente, minha história ajudará os mundos a compreender seu silêncio e os encorajará a aprender e agir.” 

Fizemos uma nano entrevista com Mônica Lewis porque, além de sermos fãs de sua arte, sabemos a importância do desenvolvimento de consciências críticas e espaços de fala, para que as próximas gerações não sejam silenciadas por não democracias.  

LABO Mônica, que legal poder te ter aqui na LABO. De aluna de uma escola católica no Recife, na época da ditadura militar, à professora na Inglaterra nos anos 2000. Quais resquícios, remanescentes da tua educação escolar, tu percebeu que estavam presentes na forma de dar aula?   

Mônica A vivência escolar é fundamental na nossa formação, não só acadêmica como pessoal. Essa vivência carregamos conosco independente de onde estejamos. Na minha escola, a obediência e o respeito à figura de autoridade, no caso os professores, era soberana e a contravenção desta, punida de imediato. Essa ideia de respeito é uma coisa que eu, como professora, fiz questão de elucidar na minha sala de aula. Mas o respeito mais como um direito / dever humano, e mútuo, do que o adquirido através do medo.  

A metodologia de ensino que vivi na escola, de transmissão de conhecimento, também influenciou minhas atitudes na sala de aula. Ao invés de transmitir o conteúdo somente, passei a incluir a participação do aluno, e com essa troca de conhecimentos e vivências desenvolvermos uma consciência crítica, juntos. 

Foi a memória desse ‘medo’ que vivi durante a minha vida escolar que me fez refletir, repensar e, consequentemente, reinventar a professora que eu queria ser. 

LABO Como foi levar a cultura da La Ursa, tradição do carnaval pernambucano, para um país tão diferente do nosso? “A arte não tem fronteiras”. É isso mesmo? 

Mônica O conceito da Ursa não é desconhecido aqui na Inglaterra. Na época da rainha Vitória o show das Ursas dançantes era comum. E foi a proibição desses shows, por defesa dos direitos dos animais, que fez com que os artistas que treinavam as ursas as levassem para outros países onde ainda era permitido, como no Brasil. Foram essas ursas ‘importadas’ que deram inicio a nossa tradição em Pernambuco. Quando eu comecei a usar a La Ursa aqui eu já tinha dado em minha tese um novo significado a ela, o do animal preso, maltratado e que não tinha voz. A importância de se ter voz é um conceito mundial, e isso facilitou a aceitação da ideia da La Ursa, assim também como o visual dela: interessante, colorida e diferente.  

A arte visual transcende palavras, e a La Ursa que usei aqui conseguiu transmitir mensagens que foram compreendidas por diversas pessoas de maneira diferente, manifestando-se diferentemente de acordo com a realidade de cada um. Isso fez com que grupos feministas, LGBT e políticos vissem a La Ursa como uma personagem que representasse a verdade e crença de cada um. 

LABO O que mudou na Mônica pessoa, na Mônica artista e na Mônica professora depois de toda essa autoreflexão gerada pela pesquisa? 

Mônica A maior contribuição que a minha pesquisa com a La Ursa me proporcionou foi o poder de transformação. Essa transformação influenciou uma mudança de comportamento e, consequentemente, um empoderamento pessoal, artístico e profissional. A falta de voz, a mudez da La Ursa, fez com que eu embarcasse numa revisão dos meus próprios conceitos e isso resultou na descoberta da minha própria voz e me deu forças pra exercer essa voz sem medo. A ausência de medo, a força e o apoio recebido me fez uma pessoa completa, forte e feliz. 

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