“Não há quem se livre sem se libertar”. Com vocês, Pedro Breculê e “Sabalangá”

Música #dubrasil

em 28 de setembro de 2021

Pedro Breculê – “Tenho uma tremenda admiração pelo povo brasileiro e a criatividade que se manifesta naturalmente em nosso dia a dia”

Natural de Fortaleza – CE e formado em composição na Berklee College of  Music de Boston – EUA, Pedro Breculê [Breculê é nome artístico que Pedro ‘adotou’ em função de sua primeira banda: Breculê] é cantor, compositor e musicista de mão cheia, que está na ativa há um bom tempo. O músico faz parte de uma geração de artistas geniais que estão fora do mainstream, por isso acabam encontrando algumas dificuldades para chegar a um número maior de ouvintes. O que é uma pena, se pensarmos na qualidade do trabalho desse menino de fala macia e de sorriso bonito, entre outras qualidades. 

Vindo de uma família musical, pai, mãe, avós tios e tias, sendo uma das tias, maestrina, Pedro literalmente deu os primeiros passos na arte através da dança. “Apesar de tantos músicos na família eu comecei mesmo foi dançando. Desde pequeno que curtia o Break Dancing e a turma da rua vivia inventando os “passos”. O primeiro disco que fui comprar na loja foi o “Thriller” do Michael Jackson com o propósito mesmo de dançar”, conta Pedro.  

Observador do cotidiano, Pedro diz que a inspiração vem de todo lugar: um banho de mar, uma conversa de rua ‘pescada’ numa caminhada, o cheiro de uma comida, uma roda de capoeira, dança, cinema, poesia… “Música e poesia se complementam muito bem, às vezes parecem ser duas pontas do mesmo fio. Na música brasileira então isso ainda é mais emaranhado, gente como Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Chico Buarque, Noel conseguiram fundir essas duas artes numa singularidade absurda. Eu amo muito a canção e busco bastante essa fusão de poesia e música.” 

Pedro Breculê

“Sabalangá”

“Não há quem se livre sem se libertar 

Já deu pra saber, o sol anunciou: 

— Zambi é Zumbi 

E Zumbi será 

E essa ideia incendeia e reluz 

Luz”

Quem colocou Pedro Breculê, no radar da LABO Plural Singular, foi Beto Gibbs, que é produtor e também tocou bateria no primeiro álbum solo do artista, com lançamento previsto para novembro de 2021, ‘Na Latada do Terreiro’.   

Entramos em contato com o Beto para ele nos contar um pouco mais sobre essa amizade tão promissora para a música brasileira. Amigos de longa data, “antes mesmo da gente nascer”, pois seus pais já circulavam juntos pelos rolês culturais de Fortaleza, os meninos perderam o contato num determinado momento, voltando a se reencontrar anos depois em São Paulo. Pedro, na banda Breculê, e Beto tocando bateria com Saulo Duarte e a Unidade. Esse reencontro acabou gerando uma participação de Pedro no álbum “Quente”, segundo disco de Saulo Duarte e a Unidade.  

E assim começou uma nova fase de parceria, dessa vez musical. Sorte a nossa! Quando Beto voltou a morar em Fortaleza, mudou para bem perto da casa da avó de Pedro, “foi quando ficamos mais próximos ainda. Eu voltando de São Paulo e ele de Boston. Vez por outra a gente ia dar um mergulho no mar. Eu ia tomar café na casa da avó dele, na verdade uma casa que mais parece um sítio cheio de animais… tem pato, ganso, galinha… eles sempre foram muito receptivos comigo. Então ficávamos horas batendo papo. Eu tenho Pedro como um irmão mais novo. Um cara com um conhecimento, uma capacidade e uma inteligência que dão gosto de conversar. Além de um excelente violonista ele é estudioso dos astros. Nesse período Pedro apresentou as músicas, a maioria ainda instrumentais, e perguntou o que eu achava. Eu falei que eram demais, muito bem feitas e que poderíamos amadurecer essas ideias. Sugeri de juntar todas essas músicas, foi quando ele perguntou se eu topava produzir o disco. Eu fiquei bastante surpreso, pois apesar de ser mais velho, ter mais experiência musical, o Pedro é muito talentoso, é um gênio, um cara refinado, um mestre das cordas. Eu sempre tive ele como um guru. Esse convite me deixou muito feliz e peguei isso como um ‘momento massa enquanto músico e produtor. Um desafio mesmo’.  

Pedro Breculê nos contou que ‘Na Latada do Terreiro’ era pra ser um álbum instrumental, mas, “no decorrer do processo fui descobrindo ele como um disco de canções”. E que disco, senhoras e senhores! Tivemos a honra de escutar o álbum inteiro em primeiríssima mão. Sobre ele, falamos mais pra frente… “Sabalangá”, segunda música de trabalho do álbum, lançada semana passada, é uma parceria de Pedro com o amigo, compositor e poeta Daniel Medina e faz uma referência aos mocambos do Quilombo dos Palmares. Tem jazz, MPB, cancioneiro regional e, claro, muita música contemporânea. É nossa ancestralidade. É África, samba e semba! Tem Pedro na voz e no violão 7 cordas, Netinho de Sá no baixo elétrico, Beto Gibbs na bateria, Ricardo Abreu no trompete, Rossano Cavalcante agogô, reco-reco, tamborim e surdo, e Thiago Rocha no sax alto e soprano, completam o time. Dá um play em “Sabalangá” e leia a nano entrevista que fizemos com Pedro Breculê.

Pedro Breculê – “Sabalangá”

LABO O single “Sabalangá” é a segunda canção de trabalho do seu álbum de estreia ‘Na latada do terreiro’. Também uma comunidade quilombola, situada na cidade de Viçosa, Alagoas, cujo significado é “lugar do chefe”. Qual sua intenção em cantar a comunidade? 

Pedro Breculê Confesso que minha pesquisa em relação a essa letra foi fundamentada no passado, dos tempos idos de Palmares. A intenção é a de trazer ao presente um marco tão monumental da nossa história. Acho que muitas pessoas não têm ideia do quão imenso, populoso e organizado era o  Quilombo. Foram mais de cem anos de resistência e muitas vitórias sobre o estado luso-brasileiro e os invasores holandeses. Eram vários mocambos e um deles era Sabalangá, escolhemos esse nome pela sua sonoridade marcante e também pela similaridade com a palavra samba, porém ainda tentei encaixar um outro mocambo chamado Dambrapanga mas ficou pra próxima. Buscamos também palavras de matriz afro-brasileira para o desenvolver da canção. Cantar essa comunidade é trazer à tona essa resistência tão mal contada e distorcida pelos nossos historiadores, para outras perspectivas, por isso a letra começa “Fosse Sabalangá…” 

LABO Resgatar e voltar a valorizar a cultura brasileira é um trabalho que precisa ser feito com urgência. ‘Na Latada do Terreiro’, faz esse resgate com muita propriedade. É um disco tropical, praieiro, poético e político. Começar a carreira solo com pautas tão necessárias e, ao mesmo tempo, cheias de barreiras, é combustível para o artista Pedro Breculê? 

Pedro Breculê Combustível extremamente necessário e fundamental. A música, o povo, a cultura brasileira e o Brasil, com todas as suas contradições, são absurdamente singulares e ricos de conteúdo, formas, ideias, sons e imagens. As barreiras estão aí para deixar o “gigante” eternamente dormindo, eternamente no futuro. É necessário descolonizar muita coisa e encontrar o que faz sentido pra gente, ao invés desse eterno adaptar do que funciona lá fora para cá. O Brasil precisa ser pensado de dentro pra fora, com todas as suas peculiaridades levadas em conta em cada região, município e bairro, o que muitas comunidades já fazem independentemente do estado. É complexo mas só a gente tem condições de resolver. 

LABO Uma década se passou entre ‘Vidas Volantes’, álbum lançado de forma independente com a banda Breculê e, ‘Na latada do terreiro’. O que você percebe que melhorou e o que piorou, no mercado da arte independente? 

Pedro Breculê Sinceramente, em termos de mercado, principalmente aqui no Brasil, é tudo muito desproporcional para o artista independente, muito pelo fato de que aqui não existe uma divisão entre mercados de largo, médio e pequeno porte. Ou seja, mesmo que você não tenha intenção de trabalhar com o grande público, ainda assim você compete diretamente com artistas que lotam estádios. Isso dificulta bastante, principalmente quando no começo de uma carreira. Por outro lado, eu tenho notado que o público está mais sedento de coisas novas e diferentes e principalmente de se conectar com o artista. Esse relacionamento público-artista tem sido cada vez mais próximo e íntimo mesmo. Noto que a turma gosta de ver o sujeito no processo criativo errando e mudando letra e melodias, essa interação tem trazido um tipo de público muito diferente  e maravilhosamente fiel.  

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