Novos vôos do cantor e compositor Allen Alencar

Música #dubrasil

em 16 de outubro de 2020

É impossível falar sobre produção cultural nesse ano de 2020 sem fazer referência à pandemia. É um momento de alta produtividade | criatividade, já que shows, eventos, exposições e todo tipo de aglomeração, estão suspensos. 

Allen Alencar é um exemplo dessa explosão criativa que o isolamento social desencadeou. O multi-instrumentista, cantor e compositor sergipano, radicado em São Paulo desde 2012 e agora passando um período na Ilha do Ferro, interior de Alagoas, já era conhecido no meio artístico por tocar com diversos nomes da cena musical nacional. 

Esse não é um bom verão pra nós

Em novembro de 2019, Allen lançou o excelente álbum de estreia ‘Esse não é um bom verão para nós’, que retrata um verão que pode soar mais melancólico com “sóis, céus, ferrugem, muralhas, navalhas, quentes cais…” O disco conta com várias parcerias como Romulo Froes, Arruda, Bruna Barros, Julia Valiengo, Carolina Delleva, Zé Ruivo e Richard Ribeiro. 

Rastro – Música para dois poemas

No primeiro trimestre de 2020, quando o mundo já estava em confinamento, saiu o EP ‘Rastro – Música para dois poemas’. Segundo o artista, “um caminho do meio entre o primeiro álbum e o que vem a ser o próximo disco”. São dois poemas transformados em canções. “Rastro”, de autoria do artista poeta Brunno Fsc, questiona a existência: quem somos nós? Quem sou eu? “1964”, do poeta Lobo Guará trata dos deslocamentos geográficos e subjetivos, no ano em que o país sofreu o golpe militar. Daniel Doctors, Zé Ruivo, Lobo Guará e Dudu Prudente são os parceiros da vez de Allen Alencar, que produziu e mixou o EP. 

Aqui Onde

Dando sequência a esse período criativo, Allen lançou, no início de outubro, pela PIPA Music, o single “Amiga Asa”, com participação da cantora de ascendência senegalesa Anaïs Sylla. A canção fala “sobre se perder e buscar numa certa visita a um passado íntimo, uma síntese diferente para o nascimento de um novo momento e uma nova posição de sujeito diante da vida. Sobre ter asas e viver preso”. “Amiga asa” faz parte do novo álbum do artista, ‘Aqui Onde’, que será lançado dia 30 de outubro em todas as plataformas digitais.  

A LABO Plural singular convidou Allen Alencar para uma nano entrevista pra falar um pouco mais sobre seu trabalho autoral. Dá o play nos vídeos que colocamos na matéria e leia o bate papo com esse artista que ainda vai fazer muito barulho.

Labo Tua carreira teve início como instrumentista, colaborando com vários artistas. Quem são as influências na construção do teu trabalho autoral? 

Allen Alencar Pois é, eu posso dizer que as pessoas me conhecem mais nesse lugar de colaboração com outros artistas, tocando, gravando, etc, mas eu não sei onde começa o Allen compositor e o Allen instrumentista, porque lá atrás, no meu aprendizado musical, era tudo uma coisa só mas acho que por uma certa timidez, a partir de um momento eu comecei a encarnar só o personagem instrumentista. Mas veio a necessidade de dar vazão a esse outro lado que nunca parou, sempre esteve latente. As coisas que me influenciam no meu trabalho solo são as mais diversas possíveis, passam por cinema, música, literatura. No primeiro disco por exemplo eu me influenciei bastante por um livro que li do Elio Vittorini que se chama “Sardenha como uma infância”, onde ele aborda a paisagem desta ilha que, para mim, com um clima meio onírico. Musicalmente acho que consegui navegar por esse caminho, fui procurando essa cara pros arranjos. Estava ouvindo muito o “Cavalo” do Rodrigo Amarante, Father John Misty, as coisas do meu amigo Rodrigo Campos. Mas, de forma geral, muita coisa me influencia, ouço bastante coisa. 

Labo Depois de estrear com um disco falando sobre mares, verões, lugares e amores, veio a pandemia. O single “Amiga Asa”, lançado no início de outubro, traz uma perspectiva de liberdade e solidão. É esse contexto que permeia o próximo álbum? 

Allen Alencar Não tinha pensado nisso exatamente, mas pode ser. Acho que essa música especificamente é um caso mais particular e traz essa procura por renovar os caminhos, não necessariamente se achar, porque não sei se o sinônimo de perder é achar, mas como a letra fala sobre perder a direção e tentar encontrar um novo sentido para as coisas, acho que esse sentido se dá a partir, não necessariamente de um encontro com algo, mas com a sensação de que se perder pode ser libertador e a liberdade pode ser um caminho para uma renovação de sentido da vida. 

Mas, voltando ao álbum, acho que ele, de alguma forma, carrega sim esse diálogo mas como uma forma de colocar as duas coisas juntas numa perspectiva positiva, pensando a solidão como algo diferente do isolamento. Solidão nós trazemos conosco, sempre há um lugar solitário dentro de nós, agora, o isolamento é trincheira, é se colocar sozinho sem nada ao redor, de uma maneira defensiva diante da vida.

Labo Como foi compor e gravar um álbum nesse esquema de isolamento social?  

Allen Alencar Esse álbum foi o que me salvou da loucura. Antes da pandemia eu estava com algumas músicas e queria fazer um EP com três ou quatro. Mas quando a pandemia bateu em cheio e as coisas começaram a ficar feias, o que era um EP acabou virando um disco. Me dediquei totalmente, terminei de compor coisas e encarei fazer o disco. Eu sempre componho coisas, sempre tem algo ali pra acabar, que eu vou deixando, mas sempre tem coisas. Daí, com esse disco, aquilo que eu achava que não daria conta de compor ou que achava que outra pessoa poderia falar e traduzir o que eu queria dizer, melhor do que eu, eu passava a bola. Nesse disco tem 3 parcerias com meu amigo Romulo Froes, uma com o Meno e uma com o Clima. Tirando o Clima, que eu ainda não tinha sido parceiro, os outros dois são parceiros já ou no primeiro disco ou em outros projetos. 

Fui gravando as coisas em casa e enviando pro pessoal que eu achava que tinha a ver com a música. Todo mundo colaborou incrivelmente. Nesse sentido foi tranquilo, é uma forma diferente né, não tem aquela coisa de estar todo mundo no estúdio colaborando, tocando junto – que é uma coisa que eu sinto falta – mas foi massa também, super de boa. Acho que nesse momento muita gente acabou fazendo a mesma coisa, rolou uma rede de colaboração à distância que, de alguma forma, deve continuar pós-pandemia.  

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