Por dentro da Farol #10

Música #dubrasil

em 19 de agosto de 2021

Canções, versões e retalhos

A escrita para mim sempre foi uma colcha de retalhos, um agrupamento de ideias, lembranças e associações. Na assessoria de imprensa, uma costura de informações necessárias para dar munição ao jornalista sobre o tema divulgado.  

Nesta coluna, a narrativa mistura o objeto principal, que é a Farol Music, minha empresa de comunicação e os artistas que atendo através dela, com a minha história profissional e de vida. É aqui que as informações são menos importantes que os sentimentos que as envolvem. Dito isso, peço permissão para divagar entre os assuntos que me rodeiam neste mês. 

Agosto foi aniversário de Caetano Veloso, 79 anos. Sua voz remete a minha infância em Ribeirão Preto, interior paulista, cidade quente. Morávamos eu e minha mãe em frente a uma praça, numa casinha amarela geminada. Nas minhas lembranças, escuto as vozes de Caetano, Gil, Chico e Gal. Muitas  vezes, o som da vitrola era interrompido abruptamente por um guincho velho e barulhento que estacionava frequentemente do outro lado da rua. Nas madrugadas, quando a temperatura caía um pouco (bem pouco) o guincho demorava pra ligar. Certa noite, o vizinho abriu a janela da casa e gritou  impaciente: “Vai guincho!”  

Estamos em 2021, no meio de uma pandemia potencializada por um governo desastroso e me sinto com a mesma falta de paciência do meu antigo vizinho. As palavras de Caetano seguem, atuais, ecoando no som de casa. Escolho  “Podres Poderes”. “Será que nunca faremos senão confirmar, a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos (…) Será que apenas os hermetismos pascoais, os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais, nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais? (…) Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais”. 

Caetano Veloso – “Podres Poderes”

E por mais que se tente fugir da obviedade, quem não revisitou Chico Buarque nos dias de maior aperto e insegurança com o atual governo? Dada as devidas diferenças, se você não cantou com um sorriso no rosto “Apesar de Você” em algum momento pós 2018, é simplesmente porque ou você não conhece essa música ou estamos do lado oposto do muro. “Apesar de você, amanhã há de ser  outro dia. Inda pago pra ver, o jardim florescer, qual você não queria. Você vai se amargar, vendo o dia raiar, sem lhe pedir licença. E eu vou morrer de rir, que esse dia há de vir antes do que você pensa”. 

Chico Buarque – “Apesar de você”

Chico me traz de volta também a 2004, num momento de menos  desconfiança política e maior crescimento social e econômico no país. Nessa época fiz um curso no Instituto Tomie Othake intitulado “O Casamento das Músicas com as Letras”. Ministrado pelo querido Carlos Rennó, compositor, letrista e jornalista, as aulas traziam deliciosas análises das músicas e letras de Chico, de Cartola e de tantos outros gênios da música brasileira. 

Cartola – “O mundo é um moinho”

E se você chegou até aqui, deve estar se pensando onde é que a Farol Music entra nesta colcha de retalhos. Segura mais um pouco, que estamos quase lá.  

Conheci o trabalho do Carlos Rennó, anos antes de ter a honra de tê-lo como professor, quando ele lançou em 2000 o impecável álbum “Cole Porter, George Gershwin – Canções, Versões”: uma seleção de 14 músicas dos dois grandes compositores da era clássica da canção americana, vertidas para o português.  Rennó convidou para interpretá-las, além do trio já citado – Caetano, Gil e  Chico, Elza Soares, Rita Lee, Tom Zé, Zélia Duncan, Cássia Eller, Sandra de Sá, Ed Motta, Paula Toller, Carlos Fernando, Jussara Silveira, Mônica Salmaso e Jane Duboc.  

Gilberto Gil – Canções e Versões – “Um dia de garoa”

Agora vamos terminar a costura e arrematar essa colcha. No mês passado, me procurou para um trabalho de assessoria de imprensa, Roberto Gava, produtor musical, cantor, compositor e multi-instrumentista. Parceiro de nomes como Arnaldo Antunes e Itamar Vidal, Gava lançaria em agosto um projeto de versões musicadas a partir dos poemas do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. O vídeo de apresentação do projeto, que me fez abraçá-lo sem nenhuma dúvida, me levou de volta imediatamente a “Canções Versões”. Não só pelas grandes participações, que no caso de “Bertolt Brecht” de Roberto Gava incluem, entre outros, Zezé Motta, Skowa e Virginie Boutaud, vocalista da banda “Metrô”, mas o disco tinha também ‘sentimento’.

“Bertolt Brecht” foi lançado no último dia 10 e sempre quando o escuto,  aquela sensação de lembrança afetiva reaparece. A grandeza da música brasileira, os detalhes, a energia, a recordação da casinha geminada com o guincho barulhento, a complexidade do projeto, os nomes envolvidos, a dedicação que transparece. Dificilmente um trabalho comum tem essa aura. O disco de Roberto Gava é especial. E você há de senti-lo quando escutar.

Roberto Gava – Bertold Brecht

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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