Por dentro da Farol #11

Música #dubrasil

em 30 de setembro de 2021

O inevitável heavy metal e seus encantos

Nunca fui uma pessoa do Metal. Conheci o estilo da mesma maneira que muitos leigos, através do Metallica, na MTV Brasil. De cara, aquilo me chamou a atenção. Era forte e poderoso. Em 1991, numa época em que o acesso à música era bem menos simples do que hoje, os adolescentes como eu, passavam o dia com a televisão ligada esperando para assistir a sua banda favorita. A minha, naquele ano, era o Guns N’ Roses. A programação da emissora nos brindava com videoclipes do R.E.M, Roxette, Extreme, A-Ha, Michael Jackson, Seal, INXS, Scorpions, Nirvana, Madonna, Bryan Adams, Mr. Big, Simply Red e tantos outros nomes de sucesso. Mas o Metallica era diferente de tudo aquilo. Me recordo das imagens do início do videoclipe de “Sad But True” e, wow!, aquilo era realmente impactante.   

Metallica – “Sad But True”

Em 1996 veio o clássico “Roots Bloody Roots” do Sepultura e, mais uma vez, o fenômeno não passaria em branco para nenhum brasileiro, mesmo os que não conheciam nada sobre o estilo. E lá estava eu novamente, batendo cabeça junto aos tambores tribais hipnotizantes que se espalharam pelo mundo. Camisetas do Brasil escrito Sepultura nas costas  eram vistas em qualquer parte do globo. O país fincava os dois pés fundo na história do heavy metal. 

Sepultura – “Roots Bloody Roots”

Anos mais tarde, assistiria ao documentário “Some Kind of Monster” (2004) do Metallica e teria certeza da dimensão que aquela banda, que me fascinava no começo dos anos 90, tinha tomado. Uma das partes mais  impressionantes  revela a negociação da contratação milionária do baixista Robert Trujillo.  “Gostaríamos de oferecer a você, para mostrar que somos um grupo muito sério, um milhão de dólares para se juntar à nossa banda agora”, anunciava o baterista Lars Ulrich. O filme narra ainda a reabilitação de James Hetfield e o encontro de Lars com Dave Mustaine, guitarrista  original do Metallica. 

Metallica – ‘Some Kind of Monster’ (Trailer) 

Mas apesar da grandiosidade do Metal, trazida à tona por bandas populares como o Metallica e o Sepultura, em muitos casos o estilo ainda se apresenta segmentado, dentro de um ambiente totalmente peculiar e restrito. Com diferentes subgêneros, o heavy metal traz uma árvore genealógica gigantesca, muitas vezes desconhecida pelo grande público. Isso fica claro no, também excelente, documentário “Metal: A Headbanger’s Journey” de 2005, dirigido pelo pesquisador canadense, metaleiro e antropólogo, Sam Dunn.

“Metal: Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal” (Filme Completo) 

Feito o pano de fundo que este texto exige, voltamos a 2021, mais um ano de pandemia mundial de coronavírus, com 600 mil mortes no Brasil, “fora Bolsonaro!” e todas essas coisas que vamos evitar falar hoje para não estragar a sua leitura.  

No andar de cima da minha casa, ao mesmo tempo em que escrevo este texto, escuto tocar “The Writing On The Wall”, faixa do novo álbum do Iron Maiden, “Senjutsu”. Meu marido dispõe, no tapete, todos os discos da banda, enquanto o meu filho de 4 anos escolhe, nas respectivas capas, a imagem do seu Eddie preferido. (Para quem passou batido pela história desses gigantes do heavy metal, e merece um puxão de orelha por isso, Eddie the Head é o mascote morto-vivo da banda britânica). 

Iron Maiden – “The Writing On The Wall” 

2021 também foi o ano em que a Farol Music prestou assessoria de imprensa para duas bandas de Metal com  qualidade impecável. A primeira,  The Troops of Doom, surgiu em 2020 com o intuito de resgatar a sonoridade do death metal dos anos 1980, com influência direta dos primeiros discos do Sepultura – “Bestial Devastation” e “Morbid Visions”, dos quais Jairo Guedz,  agora guitarrista da The Troops of Doom, participou como autor e coautor.  “The Rise Of Heresy” é o EP de estreia da banda.   

“Acredito que o EP possa ser encarado como uma espécie de continuação do que eu faria naquela época, caso eu não tivesse saído do Sepultura. Ele traz a sonoridade do metal oitentista, agressivo, certas horas rápido e outras vezes cadenciado e pesado. Nosso intuito foi tentar colocar o ouvinte numa espécie de máquina do tempo, para levá-lo de volta, com a possibilidade de experienciar algo extremamente nostálgico, se comparado com o que se faz nos dias de hoje, mas no melhor dos sentidos, é claro, e com muita verdade”, disse o guitarrista. 

The Troops Of Doom – “The Confessional”  

Já o segundo lançamento do estilo, divulgado pela Farol neste ano, é  “Perpetual Chaos”, álbum da nova formação da Nervosa. Um dos nomes mais representativos do metal nacional no momento, o grupo decidiu, após a troca de integrantes, diversificar a sonoridade. “A Diva Satânica canta gutural, grow, fry e várias outras técnicas, e isso trouxe uma dinâmica maior; a Mia toca baixo com palheta e faz linhas de baixo independente da guitarra, criando uma sensação maior de ‘preenchimento’. E a Eleni trouxe técnica e diversidade, ela é muito criativa e rápida com os bumbos, é impressionante. O disco reflete o nosso espírito naquele momento, de muita empolgação, felicidade e vontade”, revelou a guitarrista Prika Amaral. 

E quem ouviu, aprovou. O álbum teve uma excelente repercussão mundial e já é um marco na história da Nervosa.  

Nervosa – “Guided By Evil”   

Tanto “The Rise Of Heresy” do The Troops Of Doom, quanto “Perpetual Chaos” da Nervosa, foram lançados em LP com edição caprichadíssima, assinada pelos selos All Music Matters, Melômano Discos e Neves Records. 

O Metal atrai multidões, acredito que seja o segmento com os fãs mais fiéis e devotos do planeta. O estilo tem um ingrediente especial, difícil de ser descrito. Talvez seja uma sensação, um tomar conta, um sorriso ou uma careta, um arrepio na alma.  

Pensando melhor, acho que eu sou um pouquinho do Metal, sim. <3

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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