Por dentro da Farol #12

Música #dubrasil

em 24 de novembro de 2021

O voo do Colibri

Entendo pouco de rap, então prefiro não me atrever a discorrer sobre o estilo, mas isso jamais me impediria de escrever sobre Vaine, o garoto de poucas palavras e muitas ideias, que me procurou para ajudá-lo na divulgação de seu primeiro álbum intitulado “Colibri”. “Me expresso totalmente através das músicas, quando em todo o resto, sempre escolhi o silêncio”, respondeu em uma das minhas primeiras perguntas. 

Foto: Thiago Paulino

Nascido na capital paulista, o rapper cresceu numa família simples na rua  Colibri e teve que aprender, na marra, a lidar com as dificuldades. Perdeu o pai aos três anos de idade, vítima de violência urbana. A mãe ficou com a difícil missão de cumprir o desejo do pai de que os filhos chegassem ao ensino privado. Ela conseguiu e Vaine garantiu a educação de qualidade, e junto com ela, a inquietação frequente do convívio em um ambiente que nada se parecia com aquele que ele morava. “Cresci com o desconforto de me sentir  deslocado, feio e pobre, nas mais simples experiências cotidianas. Eu era,  violentamente, um jovem negro num mundo branco”.

As vivências dolorosas que o cercaram no passado, foram também responsáveis por moldar o indivíduo e o artista que Vaine se tornou. O título do disco de estreia reconhece e homenageia o seu lugar de origem, as suas lembranças e principalmente a sua transformação. “É o ponto de partida para voos maiores”, explica. Vaine hoje é o um pouco da Colibri rua e do Colibri pássaro.  

Atualmente com morada em Uberlândia, Triângulo Mineiro, o rapper tem a criação como um norte. Graduado em Artes Visuais, Vaine desenvolveu para apresentação do disco debut, o que ele chama de “álbum visual”. Se valendo da relação entre palavra e imagem, o artista criou uma série de animações que acompanham cada uma das faixas de “Colibri”. “Uni minhas duas linguagens, a música e a arte visual como uma forma de chegar num resultado maduro que me representa completamente como artista”, conta. 

“Colibri”

O processo de criação particular de Vaine, não esconde o seu protagonismo, sua história e reflexões. “Colibri”, de forma bastante consciente, desenha esse personagem que deixa o silêncio de lado e se entrega em rimas. O autorretrato em áudio e vídeo, traz para dentro do enredo ainda, o protagonismo preto, que o rapper cuidadosamente fez questão de incluir também em todas as participações do álbum. Monkey Jhayam, Uiara, Natania Borges, Darmi e  Emiadê são os nomes que aparecem em “Colibri”, que conta com a produção e direção musical de Xavbeatz. O disco reuniu ainda, os músicos arranjadores, Jack Will (percussão), Mauro Fontoura (saxofone), Vinícius Lustosa (trompete), Alícia Kenobi (teclado), Douglas Carlos (guitarra), Rafael Vaz (contrabaixo), Ciro Nunes (flauta), Trio Façuá (sanfona e triângulo), Rafael Baska (scratches), e os beatmakers TiagoBits e Apenas Toni.  

Arte: Thiago Teodorak

Além das animações, “Colibri” ganhou também um videoclipe assinado por Orsini Films para faixa “Como Tudo Era”. 

“Como Tudo Era”

A coluna de hoje é sobre Vaine, não sobre rap. A maneira deliciosa que ele mistura música e arte me encanta obviamente por também circular entre esses dois mundos na minha vivência pessoal e profissional. Fiz mestrado em Artes Visuais na mesma Universidade Federal que neste ano graduou o rapper. Ele não sabe disso. Temos realidades e vidas distintas. Mas é nesse mundão misturado de culturas, histórias e diferenças, que as pessoas dão de se encontrar e de aprender uma com as outras. O trabalho de Vaine me ensina, me força a olhar pro lado e me faz ter vontade de aprender cada vez mais. Voa, Colibri!    

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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