Por dentro da Farol #2

Música #dubrasil

em 7 de outubro de 2020

UM GRITO DE RESISTÊNCIA 

Em 2002 quando Henrike Baliú escreveu a letra de “O Idiota”, um dos hinos da lendária banda punk rock Blind Pigs, extinta em 2016, jamais passou pela cabeça dele que estaríamos vivendo a situação política de 2020. “E você é o idiota que não vê o seu país indo para o inferno”, gritava aos 28 anos o vocalista de moicano em pé e jaqueta de rebite.  

Armada

Hoje aos 46, Henrike está à frente da Armada, que tem entre seus cinco integrantes, quatro ex-porcos cegos. O visual menos carregado e as novas influências sonoras apresentadas pelo grupo, não deixam de lado a crítica social e política afiada, que já permeava a antiga banda. No álbum de estreia, “Bandeira Negra”, lançado pela Hearts Bleed Blue (HBB) em 2018, algumas faixas se destacam pelo posicionamento contestador da Armada.  

Soltaram rojões, comemorações, a democracia morreuUrros, aplausos, o ódio venceuQual é o seu lado?, questiona o refrão de “O Ódio Venceu”, composta após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, seguido da polarização política e do levante do autoritarismo, que encontra espaço também em “Tirania”. Tiraniaherança militar, bela e recatada, cuspindo bombas de gás. “Índios Corsários” lembra o massacre indígena e homenageia o guerreiro Arani, Mandu Ladino. “Flechas envenenadas contra tiros de arcabuz (…) Unir para lutar, lutar para existir. Com tom debochado, “Desperdício de Milagre”, faz uma crítica as religiões caça-níqueis. Mãos ao alto, venha a nós o vosso bendito dinheiroO rebanho cresce, frente à televisão, aleluia, irmão 

No entanto, em fevereiro de 2018, quando “Bandeira Negra” foi lançado, o presidente Jair Bolsonaro ainda não havia sido eleito. Com o acirramento das tensões políticas, a banda sentiu necessidade de fincar o seu posicionamento frente à ala conservadora que busca o revisionismo histórico do período da ditadura militar e, em 2019, lançou o EP “Ditadura Assassina”, pela Neves Records. Com arte impecável do ilustrador brasiliense Paulo Rocker, a Armada deu novamente o recado na faixa “A Rua de Trás”: “Vivemos dias obscuros, o ciclo da repressão. Eu cresci com a censura na rádio e na televisão (…) Não há o que celebrar”.  

O Armada já havia começado a gravar o segundo disco, quando o mundo foi surpreendido pela pandemia, que nos levou ao isolamento social. Separados, mas cheio de questionamentos, seus integrantes continuaram produzindo à distância, e decidiram que a mensagem era mais importante que o meio. Na falta de um estúdio, passaram a cantar sua revolta em gravações caseiras, e assim surgiu o single “Ratos”. “Conseguiram te enganar, atraiçoar, amotinarNão nasceram pra liderar, à deriva em alto mar (…) Vamos todos afundar, e os ratos sem compaixão, abandonam o navio.  

Foi durante esse período de “faça você mesmo”, que o Henrike de 2020 achou que era hora de resgatar o Henrike de 2002 e então, o Armada fez a versão acústica de “O Idiota”, que segundo o vocalista, faz muito mais sentido agora do que quando a canção foi criada. A faixa ganhou também um novo videoclipe que faz uma comparação entre os ideais do governo Bolsonaro e o regime nazista comandado por Hitler, como a idolatria cega de seus seguidores, o nacionalismo exacerbado e o desprezo pelas minorias, além de criticar o armamentismo e o moralismo religioso defendido pelo bolsonarismo. O vídeo ainda cita o episódio envolvendo o ex-secretário especial da Cultura Roberto Alvim, que parafraseou Joseph Goebbels, o ministro da propaganda na Alemanha nazista, e fez referência a estética do regime ditatorial em seu discurso. 

Músicas como “O Idiota” foram responsáveis por formar o pensamento político e contestador da “legião de inconformados”, que é como o Blind Pigs costumava chamar seus fãs. Entre esses garotos, estavam alguns dos integrantes da banda Faca Preta, fundada após um show apoteótico dos porcos cegos em 2013 em São Paulo. Nesta mesma noite, decidiram que também tinham questionamentos latentes a serem explorados através do punk rock.   

Faca Preta

E foi o próprio Henrike, quem em 2015, lançou pelo “Semper Adversus”, seu extinto subselo de street punk na HBB, o EP de estreia autointitulado Faca Preta. A banda diz a que veio em “São Paulo” (“O que não nos separa, a união estreita. Gritos de contra-ordem ante a conformidade”), e contesta a apatia em “Lutando de Braços Cruzados” (“Não compartilhamos do mesmo pensamento, braços cruzados são os seus punhos cerrados. Não queremos mais você pra lutar ao nosso lado, você vendeu seus ideais”).  

Mas foi em 2020, com o videoclipe do single “Dias Melhores”, que o Faca Preta escancarou o lado político. Como que num grito de ordem, a banda desmascara o fascismo na reflexão sobre o avanço da extrema direita no Brasil e no mundo.  “Não vamos cantar o seu hino fascista nunca do mesmo lado. E a sua bandeira, não vamos levantar (…) nossa voz é bem maior, não vamos te obedecer, nem se entregar sem combater”

Diante de um cenário político cada vez mais desagregador e injusto com os mais necessitados, e de uma população apática, que assiste sentada as atrocidades cometidas pelo atual governo, nos conforta saber que existe no campo da cultura, Armadas, Facas Pretas e Porcos Cegos partindo ao ataque. Vida longa ao punk rock nacional.   

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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