Por dentro da Farol #3

Música #dubrasil

em 13 de novembro de 2020

O futuro que semeia arte

2020 tem sido um ano de reflexões. Nos recolhemos em meio a uma pandemia mundial cheia de incertezas, enquanto somos governados por uma turma que parece ter saído de um filme de terror com pitadas cômicas, o que torna tudo ainda mais desesperador. O sentimento de impotência cresce, enquanto aguardamos que a ciência opere a tempo de nos libertar de um pesadelo negacionista, que tem sido cultivado por parte da população.  

Como se não fosse o bastante, assistimos incrédulos, e também paralisados, nossas florestas em chamas. Dias atrás, nosso presidente sugeriu resolver “na pólvora” qualquer medida de interferência dos EUA nas queimadas na Amazônia. Diante de um horizonte que mistura desmatamento, intolerância e, pasmem, guerra, me lembrei de um futuro proposto pelo Magüerbes, grupo de Americana, interior de São Paulo. Há mais de 25 anos semeando suas ideias por onde passa, a banda lançou em 2015 o álbum “Futuro”, que desenvolveu um trabalho com temática forte, baseada na semente como ponto de partida para um mundo melhor.  

Em um ambiente com cada vez menos convívio com a natureza, o disco lançado pela Hearts Bleed Blue (HBB), apareceu como um incentivador da retomada dessa relação para pensar o futuro. Como um pontapé inicial, o álbum veio acompanhado de um pequeno cartão, feito com papel reciclado e sementes de papoula que, ao ser rasgado e colocado em terra fértil, floresce. 

“Futuro” nos encheu de uma esperança que hoje, diante da brutalidade e descaso dos nossos governantes com o meio ambiente, parece não mais dar frutos. E é justamente por nos sentirmos assim, desesperançados, que devemos revisitar esse trabalho tão importante da carreira da banda. É urgente e necessário voltar a plantar a semente das artes e da civilidade.  

Obrigado vida

Divulgação

Quem mora em São Paulo, provavelmente já se deparou com a frase “Obrigado Vida” estampada em algum muro da cidade.  O agradecimento foi uma ação desenvolvida pelo Magüerbes em conjunto com o coletivo de arte SHN, e “Obrigado Vida” é o nome de uma das músicas do álbum “Futuro”.  

O grupo, que conta com o vocalista Haroldo Paranhos, também artista plástico e um dos idealizadores do SHN, registrou e transformou em videoclipe uma das ações feitas na ‘campanha’ de “Obrigado Vida”, que visava à divulgação da mensagem numa combinação de música e intervenção artística. Com direção do guitarrista Fabrizio Martinelli, o videoclipe foi gravado no centro de São Paulo e captou todo o processo, desde a criação do lettering por Daniel Cucatti até a aplicação dos lambe-lambes, dos adesivos e da tinta na pele que transforma a frase em tatuagem.  

“Obrigado Vida” tomou as ruas de São Paulo e se disseminou na internet. Com letras carregadas de bons pensamentos, a ideia da banda em “Futuro”, como explicou na época o vocalista, era entender a vida no seu pequeno espaço de tempo como a oportunidade de passar para as próximas gerações, soluções, ideias e experiências que podem ajudar na construção de uma sociedade repleta de alegria e paz. “É aproveitar essa nossa caminhada a ponto de adubar as novas sementes com amor e sabedoria”. 

Mais que música

Conhecido no cenário independente por misturar música e artes visuais, o Magüerbes ostentou em “Futuro” um projeto gráfico impecável, com ilustrações de Paranhos e arte e conceito visual desenvolvido por Renato Guidolin.  Além do cartão de papel semente e do LP amarelo, as letras de cada uma das faixas foram impressas em folhas individuais, acompanhadas de ilustrações de diversas espécies de plantas e seus respectivos nomes científicos, remetendo aos livros de botânica. 

Divulgação

Em julho deste ano, já durante a pandemia, a banda participou da programação do mini festival SP Rock Mapping, que teve o intuito de unir o rock e a projeção mapeada, tornando possível a volta das bandas ao espaço público, sem que as pessoas fossem colocadas em risco. Quatro edifícios da rua Augusta, reduto do rock paulistano, serviram de tela para a exibição do festival. O Magüerbes preparou um repertório de 30 minutos e cada música foi representada por um desenho / ícone utilizando as linguagens de silk screen, xerox, poster, impressão e colagem, características do SHN, que preparou toda arte gráfica. “SHN e Magüerbes correm lado a lado há muitos anos, praticamente um faz parte do outro e já fizemos diversas experiências de arte visual x música”, conta o vocalista.  

Divulgação

Com a cabeça no futuro e os pés fincados no atual cenário da música independente do país, o Magüerbes prepara um novo álbum que deve se chamar “Rurais”. Se você ainda não conhece a banda, faça um favor a você mesmo e se recarregue de rock, arte e boas ideias.

Escute “Futuro” na íntegra

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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