Por dentro da Farol #4

Música #dubrasil

em 15 de dezembro de 2020

Pop, rock e nostalgia: a música que uniu Plebe Rude e Dominó

Estava na sala de um hospital em São Paulo esperando por um teste de Covid-19 quando recebi mais uma vez o convite para fazer a divulgação de um lançamento da Plebe Rude. No final do ano passado trabalhamos juntos quando a banda lançou o primeiro volume do álbum “Evolução”, que tinha planos de ser transformado em um musical, interrompido temporariamente devido à pandemia. “É uma versão de ‘P da Vida’, do Dominó”, escutei na mensagem do Noel, produtor da banda. Será que eu tinha entendido direito ou a ansiedade por saber se estava ou não doente tinha mexido com a minha cabeça? “A música tem a participação do Afonso Nigro”, dizia o áudio. Sim, era sério. Topei sem pensar duas vezes, torcendo para sobreviver de uma Covid-19 imaginária, que dias depois me presenteou com um PCR negativo.   

Quando recebi o link do vídeo que iriamos divulgar, o que parecia ser absurdo num primeiro momento se mostrou totalmente contagiante. Escutei no repeat algumas vezes até que meu filho de três anos começou cantar e achei que era hora de desligar. Fazia tempo que um trabalho não me empolgava tanto. Era certo que as pessoas iriam adorar aquilo. Tinha tudo pra rolar e a meia dúzia de roqueiros feridos com o feito, não seriam suficientes para abafar esse hit.

Crédito: Adriano Pasqua

Em 1987, quando “P da Vida” foi lançada no terceiro álbum autointitulado do Dominó, eu tinha 8 anos de idade. Toda a minha geração estava hipnotizada pelas botas brancas e saias curtas da rainha dos baixinhos. Nas brincadeiras no quintal, a disputa entre as meninas era qual seria a Xuxa e quais desempenhariam o papel coadjuvante de paquita. Até que o fenômeno Dominó começou a crescer e em 1988 a competição na minha turma mudou de foco e passou a ser pelos integrantes da boyband. Meu preferido do grupo, naquela capa preta do quarto álbum que não saia da vitrola, era o Nill. Escutava sem parar o disco que começava com a faixa “Com Todos Menos Comigo” e trazia ainda “Dono de Mim”, uma versão do compositor Edgard Poças para “All the Young Dudes” do David Bowie, gravada pelo Mott the Hoople em 1972. Poças também foi o responsável por “P da Vida”, “Manequim”, “Bruta Ansiedade” e tantos outros sucessos do Dominó.  

Na mesma época, o rock nacional, que mais tarde ficaria conhecido como o rock dos anos 80, ocupava em peso os espaços nas rádios, novelas e programas de tv, inclusive os infantis. Entre as bandas que se destacavam, estava a brasiliense Plebe Rude, dona de um dos maiores hinos políticos do rock brasileiro, a impecável “Até Quando Esperar”.   

Confesso que passei rapidamente pelo que estava sendo feito no país em relação ao rock n’ roll, pois na infância, conhecia apenas o que os meus pais escutavam. (Fui me apaixonar de verdade pelas bandas brasileiras dos anos 80 só na metade dos anos 90 e até hoje “Até Quando Esperar” está no topo da minha lista de favoritas). Pulei do quarto álbum do Dominó para “Step by Step” do New Kids On The Block, mas não demorou muito e logo troquei as boybands pelo Guns N’ Roses e foi aí que tudo começou, mas essa é uma outra história.   

P da Vida

“P da Vida”, que se consolidou como um dos maiores hits do Dominó, é a versão de Edgard Poças para “Tutta La Vita” do italiano Lucio Dalla. Enquanto desenvolvia o release sobre o lançamento da Plebe, tive a honra de conversar com o letrista, um dos protagonistas do pop neste período.   

“Essa música veio para mim como muitas outras do Dominó, para eu escrever a letra, e eu a deixei, de início, e comecei por outras. Quando chegou quase no fim, eu vi que já tinha o sucesso. O “Manequim” eu achava que podia ser sucesso. Sem dúvida iria puxar o disco, e com essa quase certeza eu fui para cima dessa música com um outro olhar. E aí veio essa ideia de falar sobre o que tava acontecendo naquele momento no mundo, esse mundo desordenado, que agora a gente tá vivendo mais desordenadamente, e eu comecei a pensar que o ser humano comum não está governando a vida dele, está sendo governado por forças maiores, que dominam o mundo, e a gente parece um grande rebanho. Comecei a pensar na destruição do planeta e nas cartas marcadas trocadas pelos poderosos”, lembra Poças. 

O ex-Dominó Afonso Nigro não esconde a admiração que tem pelo compositor e o reverencia sempre que fala do grupo. “‘P. da Vida’ é emblemática na nossa carreira porque, apesar da gente ter tido acho que 14 ou 15 hits, ela é a música que todo mundo lembra, né? A gente fez quatro filmes com os Trapalhões, vendemos 5 milhões de discos, oito discos de ouro, oito de platina. Uma carreira muito longa para uma boyband e de muito êxito, mas ‘P. da Vida’ é a música que mudou a nossa história graças (em todos os sentidos) a Edgard Poças. Nós, de todo o Dominó, e da gravadora Sony Music devemos essa a ele. O cara criou essa letra que é absolutamente atual e eu considero que ela entrou para a história na música brasileira”.   

A regravação

Sempre atentos às temáticas políticas e sociais da atualidade, a Plebe Rude logo reconheceu, na versão em português de “P da Vida”, uma letra forte e impactante, que trazia a possibilidade de unir o pop com mensagem de conteúdo. “Eu já gostava da música desde a década de 80. Achava ousado o fato da banda mais pop da história da música popular brasileira ter conseguido gravar uma letra com cunho social contundente. Como ‘P da vida’ não envelheceu, muito pelo contrário, a Plebe ficou muito à vontade de fazer a versão”, contou o vocalista Philippe Seabra.  

O baixista André X diz que a banda nunca gravaria uma letra que não tivesse alguma relevância. “Não está no nosso DNA”, afirma. “A letra é na cara, não tem o que interpretar. E está muito relevante. O assassinato brutal e movido a preconceito no Carrefour, coloca um holofote na necessidade de desconstruir o racismo estrutural de nossa sociedade. As queimadas de nosso tesouro verde. O descaso à pandemia. A cultura de “open bar” e “closed minds.” A polarização que evita debates e nos joga numa decisão binária. A tentativa de esconder todos que são diferentes do dito normal. A aproximação perigosa do estado e a religião, tornando o estado laico uma farsa. Se tudo isso não deixa você p da vida, a Plebe não é sua trilha”, completa.  

Certo de que o dueto improvável ainda deve surpreender muita gente, Afonso Nigro afirma que a parceria só foi possível, já que a música é atual, política e remete de certo modo ao momento pelo qual estamos passando. “Regravar ‘P da Vida’ foi o máximo, ainda mais com uma banda que eu sempre admirei”.  

Com o peso das guitarras distorcidas no lugar dos teclados, “P da Vida” faz parte do lançamento homônimo que conta ainda com mais uma faixa, a inédita “O Gigante Adormece”, composição de Seabra, que seria adicionada à versão da Plebe Rude de “P da Vida”. No entanto, devido à dificuldade em obter a autorização do espólio do autor original na Itália, virou uma segunda música. 

O vocalista da Plebe Rude conta que “O Gigante Adormece” é sobre a “passividade do brasileiro, que não consegue manter o foco no meio do ruído das redes sociais e rapidamente perde qualquer noção de indignação. É a nossa resposta à canção “P da vida”, o brasileiro fica puto mas esquece, a indignação desaparece, tem o governo que merece e o gigante – que todos acharam que acordou nas manifestações de 2013 – logo adormeceu de novo”. E o baixista finaliza: “É mais uma lista de coisas que deixam a gente p da vida. É tanta notícia ruim, tanta energia negativa, que temos medo das pessoas ficarem anestesiadas. Importante não relaxar, não dormir”. 

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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