Por dentro da Farol #5

Música #dubrasil

em 14 de janeiro de 2021

Você já ouviu Edgard Poças, mesmo que não saiba disso

Se você, como eu, já passou dos 40, com certeza, em algum momento da sua infância, Edgard Poças fez parte da sua trilha sonora. Descobri recentemente, enquanto trabalhava na divulgação do último single da Plebe Rude (uma versão de “P da Vida”, originalmente gravada pelo Dominó – que foi assunto desta coluna no mês passado), como o compositor, conhecido como o “poeta das crianças”, foi responsável por embalar a primeira década da minha vida.   

Além dos vários hits que Poças compôs para as boybands Dominó e Polegar, o músico também criou a Turma do Balão Mágico e quase todo repertório do grupo, que estourou no país inteiro, colocando a música infantil, pela primeira vez no Brasil, na liderança do mercado fonográfico. 

Com mais de duzentos títulos gravados, 11 Discos de Ouro e 4 de Platina, as composições de Edgard Poças atestam sua versatilidade e já estiveram nas vozes de Tim Maia, Djavan, Gal Costa, Roberto Carlos, Simone, Fábio Jr., Erasmo Carlos, Fafá de Belém, Moraes Moreira, Léo Jaime, Menudo, Xuxa, Angélica, Arnaldo Antunes, Eliana, Simony, Jairzinho, Chitãozinho e Xororó, Gugu Liberato, Sandy e Jr., Mara Maravilha, Patati Patatá, Palavra Cantada, Zezé de Camargo e Luciano, Kelly Key, Claudia Leite, Latino, Tiê, Céu e tantos outros artistas brasileiros. 

São muitas histórias para contar e, por esse motivo, a primeira coluna de 2021 de “Por Dentro da Farol” traz uma entrevistona especial com essa figura tão importante da nossa cultura popular. Deleitem-se com Edgard Poças! 

Paola Edgard, quando nos falamos pela primeira vez, estava coletando o material para a divulgação de “P da Vida”, sua versão para “Tutta La Vita” do italiano Lucio Dalla, que foi sucesso na voz do Dominó e agora regravada pela Plebe Rude em parceria com Afonso Nigro. A partir daí, descobri que você havia composto todos os hits da boyband. Afonso é categórico quando diz que você foi o responsável por mudar a vida dele e que o Dominó “te deve essa”. Como era a sua relação com o grupo naquela época?  

Edgard Tive pouco contato com os Dominós durante esses anos. Eles tinham muitos compromissos e eu trabalhava exageradamente, vivia inventando o tempo todo. Compunha para a Turma do Balão Mágico (5 LPs), Eliana, Gugu, Menudo, Polegar (3LPs) etc. Fora os jingles, trilhas publicitárias, campanhas políticas e projetos especiais. Nas poucas vezes em que estive com eles, o clima era ótimo, de parceria bem sucedida. Sentia que eles gostavam de mim e do meu trabalho. 

O Afonso se refere, constantemente, à importância que minhas composições tiveram na trajetória vitoriosa da banda.  

Dominó – Manequim

Paola “Superfantástico, amigo, que bom estar contigo no nosso balão. Vamos voar novamente, cantar alegremente mais uma canção”. Música eternizada pelo Balão Mágico e Djavan. Conte como foi a criação da Turma do Balão Mágico. De onde veio a ideia para esse grupo de tanto sucesso e qual a sua participação nesse projeto? 

Edgard A ideia veio do presidente da gravadora CBS. Prevendo uma explosão de vendas no mercado da música infantil, a partir do que acontecia na Europa, resolveu sair na frente e pôs a companhia toda para trabalhar na ideia, em sigilo absoluto. Assim, foi criada A Turma do Balão Mágico. E eu fui convidado para ser o mágico do balão. 

A gravadora queria algo diferente de uns disquinhos infantis coloridos, que contavam histórias e fábulas, que por sinal eu gostava muito. Os personagens eram representados por grandes atores, as letras das canções eram do grande Braguinha e os arranjos para orquestra escritos pelo genial Radamés Gnattali. Mas a gravadora queria algo novo. E, parte do algo novo, fui eu. Logo eu, que nunca fui tão novo.  Tanto que, no primeiro LP, sugeri e emplaquei Meu Trolinho de Ary Barroso; P.R. Você de Hervé Cordovil e Cristóvão de Alencar; Tem Gato na Tuba de Braguinha e Alberto Ribeiro, e Cowboy do Amor de Wilson Baptista e Roberto Martins, autores “antigos” da música brasileira. Vale a pena contar que a gravação que eu tinha para sugerir a marchinha Cowboy do Amor, era a original, dos Anjos do Inferno – um sexteto de dominós dos anos 30, algo que, para a gravadora, soaria mais antigo que o hino nacional. Eu, prevendo isso, gravei a sugestão numa moderníssima “levada” country. E não é que passou!? Quem diria, Wilson Baptista compondo música infantil! 

A gravadora escolheu algumas estrangeiras para que eu escrevesse as letras e, assim, surgiram A Galinha Magricela, o Baile dos Passarinhos, O Pato Cantor, O Trenzinho, Dança Sim etc, superando o alvo de vendas que a gravadora pensava alcançar e dando a partida para o sucesso estrondoso de Superfantástico do segundo LP. 

Balão Mágico — Super Fantásticos
Tiê – Se Namora

Paola Além dos grupos infantis, você teve canções interpretadas por diversos ícones da música nacional. Ainda ficou faltando alguém? Qual o artista que você pensa: ‘Gostaria que essa pessoa gravasse uma música minha’? Passa isso pela sua cabeça? 

Edgard Sim, ficou. Caetano Veloso seria o máximo, mas isso não tem chance de acontecer, até porque ele não deve ter a menor ideia de quem eu sou. 

Paola Como se dá essa versatilidade na hora de compor para cada um desses artistas? Como as temáticas vão sendo escolhidas? 

Edgard Como é uma encomenda, obviamente é necessário saber sobre e ouvir o intérprete, porque, se você compõe só pra si, não é mais encomenda, e aí o trabalho não se cumpre.

Palavra Cantada – Soneca

Paola Parte das suas composições são versões em português para músicas estrangeiras. Como é a escolha desses títulos?  

Edgard Considerando que eram encomendas da gravadora ou do intérprete, felizmente, eu tive liberdade de criar o que achava conveniente, levando sempre em consideração o chamado briefing (do Google: ato de dar informações e instruções concisas e objetivas sobre missão ou tarefa a ser executada, p.ex., um trabalho publicitário). 

Às vezes, aproveitava um título ou uma frase do original, que achasse um bom tema e dava a largada. Assim, La Gallina Turuleca virou Galinha Magricela. Galinha era um bom tema, mas frases como “a galinha da vizinha, avezinha magricela e depenada, (…) quem tem pena da avezinha a galinha depenada, a galinha magricela da vizinha, (…) vira cambota e bota quatro de uma vez (…), bota ovo bota banca de mais bela do Brasil”, dão a perceber que não foi um estrangeiro quem fez a letra. 

Outras vezes fazia o que me vinha na cabeça, por exemplo: De Cachibu de Cachivaca, virou Barato Bom, é da Barata. Puppy Love, pela sonoridade do título, virou Coração de Papelão, mas o sentido da letra original era outro. P da vida (Tutta La Vita), Ela não gosta de mim (Standing in The Twilight), É tão lindo (It’s Not Easy) também são bons exemplos. Na maior parte eu escrevia o que me vinha na cachola.  

Um absurdo que aconteceu foi um carinha que postou no seu blog uma crítica a Companheiro – primeira letra escrita para o Dominó, que originalmente era Camarero – dizendo que eu estava fazendo campanha para o PT! 

Paola Em 2018, você escreveu as músicas da Turminha Plimplom, grupo fictício inspirado no Balão Mágico, que faz parte da série “Samantha!” da Netflix. Como foi voltar a compor hits infantis oitentistas depois de quase 3 décadas?

Edgard Foi o desafio fazer hoje, o sucesso de ontem. Viagem no tempo. 

Paola Apesar do sucesso estrondoso da sua trajetória na música infantil, sua carreira não se resume a esse segmento. Em 2019 você lançou em parceria com o Pichu Borrelli o álbum “Cada um com Seu Cada Um”. Como se deu esse encontro? 

Edgard Pichu e eu somos velhos parceiros em fonogramas para publicidade e resolvemos fazer um disco dedicado aos professores, homenageando grandes compositores da música brasileira. Vontade de levar às crianças a música de Villa-Lobos, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga, Milton Nascimento, Braguinha, Lamartine Babo, Noël Rosa, Ismael Silva, Wilson Baptista, Catullo da Paixão Cearense, João Pernambuco. Muita pretensão a nossa? O tempo dirá. 

Edgard Poças – O Choro da Cachoeira

Paola A faixa “Sol e Lua, Lua e Sol” presente em “Cada um com Seu Cada Um” é interpretada por seus dois filhos, Céu e Diogo Poças. Essa é a primeira vez que vocês trabalham juntos? 

Edgard Não, Céu e Diogo já haviam gravado comigo em outros projetos e jingles publicitários. 

Diogo Poças e Céu – Sol e Lua, Lua e Sol

Paola A Céu é um dos nomes consolidados na nova geração da MPB. O seu álbum de estreia em 2005 de cara lhe rendeu uma indicação ao Grammy Awards. Como fica o seu coração de pai e de músico? 

Edgard Depois disso ela ganhou dois Grammys: em 2020 com “APKÁ” e 2016 com Tropix”, e o Diogo ganhou na engenharia de som deste. Na era dos adjetivos, digo que, nem muito, super, nem hiper, nem ultra e nem mega: fiquei feliz.  

Paola E conta pra gente! O que você tem escutado de música atualmente?  

Edgard Em função do trabalho, escuto de tudo um muito pouco, e pro deleite, jazz e música clássica. Villa-Lobos, Bach, Chopin e Tom Jobim, sempre. Ando impressionado com a arte do violonista Yamandú Costa, que, assim como Pelé, é um presente que o Brasil ganhou. 

Paola Depois das nossas conversas não poderia deixar de acabar a nossa entrevista perguntando: Dá para contar alguma história curiosa de bastidores pra gente? 

Edgard Em vista do mote principal da entrevista, aqui vai uma da gravação de P da Vida: Numa reunião, com o diretor artístico da gravadora e o produtor do Dominó (um cubano, muito bom), em minha casa, para tratar dos últimos detalhes do terceiro LP, aquele que consagraria a Dominómania, pintou uma saia justa danada. 

Ouvíamos as bases gravadas, opinando sobre os arranjos, palpitando sobre qual música iria ‘puxar’ o LP – eu já havia escrito todas as letras – eis que, entre um uisquinho e outro, o produtor, que era estrangeiro, irrompeu, aos berros, que não iria gravar uma das letras, de jeito nenhum, que ela era um despropósito. A letra era de P da Vida.  

Era, no original, Tutta La Vita, uma composição de Lucio Dalla. Mas a letra, tentei argumentar, no meu entendimento não era o que o grupo precisava, embora a melodia fosse fortíssima e com tudo para estourar. Como eu já havia escrito Manequim, que tinha cara de sucesso, fiquei à vontade para tentar promover, através dessa música, uma revolução no grupo, e imaginei-os cantando uma canção de protesto. Um cara “p” da vida com o baixo astral das pessoas se sentindo derrotadas pelas transas escusas, pelos dados marcados, pelos cambalachos, pelo desamor e a destruição do planeta – sim, o Dominó, em 1987, reagindo vigorosamente, contra a destruição da nossa casa! Logo aqueles boys

Voltando ao produtor que se negava a gravar, embora o diretor artístico da gravadora e eu argumentássemos que era adequada e daria uma reviravolta no grupo, que passaria a um outro patamar no cenário artístico, conquistando mais fãs. Gastei meus argumentos civilizadamente, e o cara nada, sequer cogitava discutir o assunto e eu fui ficando de pé queimado, até que: – Bem, se for assim, não se grava P da vida, nem P nenhuma!  

E rolou aquele mau cheiro, até que o diretor da gravadora ligou para o presidente da companhia, um espanhol, Tomaz Munõz, craque no assunto, e explicou a questão. Ele prestigiava meu trabalho, desde o Balão Mágico e, quando o Dominó foi criado, veio pessoalmente trazer a fita K7 (como o tempo passa!) com a música Camarero, aquela da “campanha pro PT” (rs), para que eu escrevesse a letra, a primeira gravação do grupo. 

A conversa com o produtor, o premiadíssimo Óscar Gomez, foi breve e proveitosa – reproduzo o trecho final – não ouvi o que el Señor Muñoz disse, mas imagino: – Si presidente…… si presidente, pero es ……, si, es fuertemuy fuerte 

E assim gravamos P da Vida

P.S#1. P da Vida iria se chamar Puto da vida.  Marcos Maynard, diretor artístico da CBS, adorou, mas, lamentou, achando que não passaria pela censura. Aí eu disse que podia ser P da vida e até hoje escuto sua feliz comemoração:- Do c…, do c…! 

PS#2. Difícil de acreditar, mas o presidente da CBS não queria que A Turma do Balão Mágico gravasse Superfantástico! Na próxima eu conto.

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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