Por dentro da Farol #9

Música #dubrasil

em 8 de julho de 2021

Eu preciso destas palavras

As letras das músicas brasileiras foram as primeiras responsáveis pelo meu gosto pela escrita. Bem antes de pensar em escolher uma profissão, ainda no colégio, deixava um verso, tirado de uma canção, em cada final de prova. Comecei a escrever nesta época, esbocei um livro que a minha professora de Literatura revisava pacientemente nas horas vagas – mas o lance ‘autora’ nunca desenrolou e acabei indo cursar jornalismo.  

Com 16 anos, o álbum que não saia do meu som era “Severino” (1994), do Paralamas do Sucesso. Um manto bordado pelo artista plástico Arthur Bispo do Rosário estampava a capa com a mensagem “Eu preciso destas palavras ‘escrita’”. Eu também precisava. “É muita gente ingrata reclamando de barriga d’água cheia, são maus cidadãos / É essa gente analfabeta interessada em denegrir a boa imagem da nossa nação / És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem acesso fácil a todos os teus bens / Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza à espera de um Deus que não vem”, cantava Herbert Viana em “O Rio Severino”. Era poesia da melhor qualidade, no disco considerado pela crítica como o mais “corajoso”, para não dizer estranho, do trio.  

Os Paralamas do Sucesso – “O Rio Severino”

No final da faculdade, sem muita perspectiva de entrar numa redação e escrever sobre cultura, fui trabalhar onde tinha música. Comecei como hostess no burburinho dos bares de rock da rua Augusta, em São Paulo, por alguns anos, antes de assumir a produção de uma das mais bem sucedidas casas noturnas do Brasil, em Uberlândia, Minas Gerais. Lá descobri que o que eu presenciei na Augusta era amadorismo puro. O London, tradicional balada do triangulo mineiro com mais de 30 anos de sucesso, me fez entender que, às vezes – só às vezes, a gente tem que deixar a paixão de lado para construir um negócio de verdade. E foi isso que o empresário David Moreira fez quando transformou um bar de rock em uma casa de shows, aberta aos diversos estilos musicais. Fiz relações públicas e produção de palco e camarim no London. E entre um ensinamento e outro, sobre como transformar música em negócio, fiz o que eu mais gosto – assisti à um montão de shows. Na lista estava o do Leoni, que tem sempre uma participação apaixonada do público.   

Leoni – “Os outros”

Conheci novos projetos também, como o Pouca Vogal, formado por Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii, e Duca Leindecker, do Cidadão Quem (e também marido da linda Manuela d’Ávila, que infelizmente não virou nossa vice-presidente em 2018).   

Pouca Vogal – “Girassóis”

Apesar de ter presenciado uma série de apresentações importantes durante o tempo em que estive no London, quem mantém o sucesso da casa não são as estrelas da música nacional, mas os músicos locais. Aqueles que estão lá todos os finais de semana, conhecidos como “profissionais do cover”. Quer Guns n’ Roses? Tem! Ramones? Tem também. Tim Maia? É só chegar. Amy Winehouse? Claro que tem! E, assim, conheci uma infinidade de excelentes músicos e muitos se tornaram queridos amigos também. Sempre me impressionou a capacidade de reprodução, a versatilidade, o profissionalismo, a técnica e, (por que não?), o talento dessas bandas, que, além de tirar o sustento das apresentações nos bares da cidade, produzem música autoral que, às vezes, sem saber muito o que fazer com elas, acabam ficando restritas aos amigos e jornais da região.  

Os anos se passaram, voltei para São Paulo e consegui finalmente unir música e jornalismo com assessoria de imprensa para bandas independentes. E neste mês, revivi essa época especial no London, ao trabalhar na divulgação do lançamento de “Capricorniana”, da banda mineira Mafu, uma das atrações da casa. 

Composta por Woody (voz), Alexandre (baixo) e Tico (guitarra e voz), a Mafu é conhecida por embalar festas com versões cheias de gingado de músicas de sucesso. Eu os assisti inúmeras vezes no London e fiquei extremamente feliz quando me procuraram para fazer a assessoria de imprensa do trabalho autoral deles. O single “Capricorniana” tem uma produção impecável, um videoclipe excelente e uma letra superinteressante, sobre uma mulher empoderada. “Ela é mãe, ela é solteira, talvez blogueira, e linda demais. / Professora, encantadora, uma doutora, tirou minha paz. / Envolvente, sobrevivente, mente atraente, talvez carente, assim ela vai. / Sempre discreta muito elegante, tão fascinante, é sempre capaz. / Uma moça bacana, não é qualquer fulana, ela é capricorniana” 

O lançamento deixa claro que os anos de experiência fizeram muito bem à Mafu. Que a banda se aventure cada vez mais fazendo o que já conhece tão bem, que é música boa. A faixa, que conta com a participação do rapper americano B.A. Farmer, é uma mescla de hip hop nacional, poesia romântica, guitarras de blues, trompete com surdina do smooth jazz americano e timbres modernos.

Mafu – “Capricorniana”

Depois dessa volta toda, me resta dizer que a música nacional continua me emocionando. E para não ir muito mais longe e citar o próprio Humberto Gessinger,  já mencionado, em sua canção “Banco”: “Deve haver alguma coisa que ainda te emocione / Um vinho tinto, um copo d’água / A chuva no telhado, um pôr-de-sol” 

Texto por Paola Zambianchi, jornalista com mestrado em Artes Visuais e apaixonada por música. Durante muito tempo deixou as áreas divididas: trabalhava com música, estudava artes e guardava a escrita para reflexões de si mesma. Foi com a assessoria de imprensa que resolveu misturar tudo. Hoje, à frente da Farol Music, divulga a música independente, suas ideias, sonoridades e artes gráficas.

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