Teko Porã e os Deuses do metal

Música #dubrasil

em 30 de novembro de 2020

“Eu acho que a verdade está sempre na viagem | A vida tem que ser mesmo caminhada | Conhecer outras realidades | Abrir os olhos | Aos outros mundos | Que o mundo contém | Porque o melhor que o mundo tem | Está nos muitos mundos | Que dentro dele habitam” – Eduardo Galeano 

Busking – ato de apresentar-se em espaços públicos para divulgar trabalhos artísticos, vinculados ou não, a contribuições financeiras. A cena é a seguinte: você está indo, ou voltando do trabalho, e de repente, uma intervenção artística atravessa seu caminho. Qual sua reação? Você nem presta atenção, você olha, mas segue naquele ritmo acelerado porque tem que chegar em algum lugar, ou você para e assiste? 

Se você for a pessoa que presta atenção à arte de rua e mora em São Paulo, ou passou pela cidade nos últimos oito anos, provavelmente você já cruzou pela Teko Porã em algum momento da sua vida. A banda, cujo nome significa “bem viver” ou “o belo caminho”, em guarani, é formada por músicos que levam sua arte para as ruas (buskers), tocando nos vagões dos metrôs, nas calçadas, parques… são artistas nômades que acreditam que a arte é um direito de todos e espalham suas canções por onde passam. 

Teko Porã

Formada no final de 2012, a Teko Porã tem como filosofia de vida o senso de comunidade, o equilíbrio entre seres humanos, natureza e tudo mais que nos cerca, tanto que, desde o início, a banda morou de forma coletiva na Casa Barco, uma residência multicultural, que durante mais de um ano promovia encontros para apresentações de artistas independentes e debates. O álbum de estreia “Anamaguaçu” (a grande família, em guarani antigo), lançado em 2019, é um disco com letras fortes e melodias suaves, que propõe uma reflexão sobre a vida, além da valorização da nossa cultura ancestral.

“Deuses do metal”

Com a pandemia e a suspensão das atividades artísticas, a Teko Porã precisou encerrar as atividades da Casa Barco, mas a banda segue a todo vapor, e hoje estão lançando o single “Deuses do Metal”. Uma canção que “originalmente era para falar dos ‘chemtrails’ (rastros químicos) no céu, pulverizado por aviões. Essas pulverizações têm como objetivo mudar a composição química da atmosfera, podendo facilitar a precipitação de chuvas, ou dificultar, secando as nuvens, dependendo do tipo de elemento químico utilizado, a chamada geo-engenharia do clima. E como as mesmas corporações que jogam química no céu, jogam também no chão”, conta Pablo Nomás, fundador da banda.  

“Deuses do Metal” é uma canção visceralmente rock’n’roll, apesar de dispensar qualquer nota distorcida de guitarra, overdrive ou outros pilares do gênero, contando apenas com a força natural de violões, bandolins, cello e viola de arco, à moda do Teko Porã. Conta ainda com uma declamação póstuma do escritor uruguaio Eduardo Galeano, registrada por Pablo, em Montevideo, 2011, que incrivelmente descreve a atual pandemia do medo global.  

Ouçam “Deuses do Metal”, reflitam sobre o tipo de vida que queremos semear e leiam a nano entrevista que fizemos com a banda Teko Porã. Lembrem-se, valorizar os artistas de rua é um ato de resistência!  

LABO Pablo, muito obrigada por essa conexão que começou há mais ou menos uma semana. Como é ser parte da família Teko Porã? 

Teko Porã Obrigado você pela gentileza! Fazer parte da família Teko Porã é como fazer parte de qualquer família de sangue. É a delícia e o desafio do convívio íntimo, do compartilhar o pão, o teto, os sonhos e os boletos. É uma oportunidade laboriosa de se trabalhar as diferenças de pensamento, os desafios de coabitar coletivamente, e até mesmo relações cármicas mais profundas. Ao contrário do que se pode pensar, a “Anamaguaçu Teko Porã” não é, nem de longe, algo próximo da família Doriana. Pelo contrário, é o exercício diário do equilíbrio das relações, do pensar coletivo. É trabalho, mais que tudo. 

LABO “Deuses do Metal”, canção com trechos falados pelo jornalista e escritor uruguaio, Eduardo Galeano, nasceu para instigar uma reflexão / reação diante da ação devastadora das grandes corporações com o planeta e com a sociedade?   

Teko Porã Mais do que essa ação devastadora, acredito que a música possa jogar uma luz no caráter da nossa relação com essas corporações. Sem perceber, nos encontramos praticamente de joelhos diante delas e de seu poder, nos alimentando de suas profanas hóstias transgênicas nos templos do supermarket, tendo a mente controlada por meios de comunicação de massa e banco de dados, vigiados todo o tempo por satélites e smartphones, até o clima podem controlar. Fazem chover ou fazem secar. É muito poder, são deuses mesmo. Dizem que Deus sabe de tudo, mas quem sabe mesmo é o Google e as Big Techs. Só nos falta rezar pra eles, e “Deuses do Metal” é essa anti-oração. 

LABO Vocês estão com um financiamento coletivo engatilhadíssimo para dar um giro por Portugal. Quais os projetos do Teko Porã para esse novo tempo que estamos buscando? 

Teko Porã Se tem uma coisa que 2020 e a “pandemia de medo”, como alertou Galeano, vieram nos mostrar, é que planos estão fora do nosso controle, mais do que nunca. De qualquer maneira, se 2021 nos permitir um último suspiro de normalidade, gostaríamos de seguir nosso caminho, já que sempre fomos uma banda itinerante, e seguir tocando pelas ruas e vagões do mundo, seja em Portugal, na Irlanda, na América Latina ou qualquer outro lugar do planeta. Não está fácil ficar trancado no mesmo país com Bolsonaro e seus milicos. Vamos rezar pra ‘Santa Vacina’.

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