Victor Libório (Quimera)

Arte #dubrasil

em 15 de julho de 2020

Cursando o último ano de Design, na Universidade Federal de Santa Catarina, Victor Libório é um artista contemporâneo que busca sua inspiração em tudo que o deixa animado para viver o próximo segundo: cores, Mangá, música, canto, dança… e os desenhos animados, o que, para ele, “são SEMPRE um ponto de conforto e inspiração”. Natural de São José dos Campos, interior de São Paulo, Victor faz parte de um grupo de artistas que expressa, através de seus trabalhos, o corpo nu e a sexualidade, de uma forma natural.

Quimera

“A minha arte é, sem dúvida, dos pés à cabeça: queer” (a essência da cultura queer é permitir que cada um seja o que quiser), conta o artista apaixonado por Jup do Bairro, Linn da Quebrada, Pabllo Vittar, Lady Gaga, Hayao Miyazaki, Katya Zamolodchikova, Rita Lee, Elis Regina, Ana LuizaVitor Medeiros Muniz, Violet Chachki, Thierry Mugler, Jenkin Van Zyl , Rebecca Sugar, Sia, Ana Carolina, Jaloo, Alicia Keys e Hirohiko Araki.

Victor Libório

Victor sempre gostou de desenhar de forma analógica, mas quando descobriu o digital, ele ficou encantado “pela luz da tela, a vibração artificial das cores e as infinitas possibilidades de manipulação e criação em cima das obras”. Hoje em dia cria desenhos analógicos em uma tela de ipad, com a apple pencil e a junção desses dois mundos funciona muito bem. Durante o processo criativo, Victor costuma ouvir música, buscar suas referências, dançar, cantar, rir… e todos esses traços recorrentes de felicidade são características em seus trabalhos, sempre com cores vibrantes, provocativos, alegres e divertidos.

Para Victor, a música “é um dos maiores canais que ligam o meu mundo físico com o meu mundo criativo. Ela faz os sentimentos parecem comestíveis e saborosos, fáceis de se estar com, e impossível de não querer tocar neles. Me ajuda muito a criar e me mantém sonhando”. Falando em comida, a culinária brasileira apetece bastante o rapaz, além das festas juninas e do carnaval. Quando o assunto é literatura, os 288 Mangás que ele tem guardados dão uma ideia para qual lado da leitura está voltado seu interesse.

A LABO Plural Singular conheceu a arte de Victor Libório em uma das nossas buscas frenéticas por artistas talentosos, gente nova que tem muito a dizer. Que faz um barulhinho bom. Que faz arte. Que pensa. Que transforma. A nano entrevista da rodada é com o autor do projeto artístico Quimera, fã da animação “A Viagem de Chihiro” do diretor Hayao Miyazaki.

Labo O que é o projeto Quimera?

Victor Eu gosto de encarar a Quimera como o gene da minha estética. Ao entrar no mundo da arte, a busca pelo “estilo” ou “linguagem” própria se torna uma exigência externa e também, sendo sincero, um desejo interno. Mas eu percebo que ambos fatores são mutáveis, nascem, crescem e mudam conforme a vida e contexto do artista. A Quimera é a minha linguagem hoje. Ela tem se adaptado às minhas constantes vontades de crescer e explorar novos estilos e plataformas, mostrando para mim que veio para aceitar meus processos, mais do que isso, ela os contempla e respeita…protege. Então, o projeto Quimera é a minha experiência com esse gene criativo (ou personagem, se facilitar o entendimento), é testar o quanto ele se adapta aos diferentes trabalhos. Quero saber o quão grande o universo da Quimera pode crescer e ainda ter cada elemento dele, reconhecível como Quimera.

Labo Trabalhar o corpo livre e a sexualidade de forma lúdica, através da arte, provoca reflexões sem agredir. Como o público reage quando se depara com essa temática?

Victor Eu gosto da ideia de agredir hahahah. Eu aceito o poder que o choque tem de destruir as coisas que precisam ser destruídas e faço uso dele. O que eu procuro fazer é imediatamente depois da destruição, já propor uma nova construção ou, ao menos, inspirar uma. Eu sinto que é impossível falar sobre meu trabalho de intervenção em fotografia sem falar de sexo. Sexo para mim começou muito cedo, de uma forma bastante abusiva e nociva para a minha saúde mental e corpo, os detalhes eu prefiro, por ora, deixar minhas obras contarem. Para mim, criar o que eu crio e colocar o sexo como força e entretenimento é uma retomada da minha própria narrativa com sexo e sexualidade, e eu acho que o público sente isso. As reações são diversas, eu percebo que tem pessoas que apenas acham pornográfico e vão se masturbar. Para algumas delas, o que eu digo: vá em frente. Mas a maioria, e são essas que eu realmente me importo, veem força na maneira como eu me projeto. Veem força na Quimera. E elas estão certas, eu quero que cada corpo que não esteja adequado ao status quo de ser, se sinta contemplado e amado pelo meu universo. E, principalmente, que percebam o quanto eu AMO fazer isso, o quanto eu me DIVIRTO fazendo tudo isso. Meu recado está na bio do meu Instagram e vai estar para sempre lá: Divirta-se!

Labo A cultura oriental é mais que referência em tuas obras, ela é influência direta e reta. Em que momento essa cultura transformou o joseense Victor em um Otaku?

Victor Subindo as escadas pro segundo andar, na casa do meu vizinho, todos com 11 anos, Naruto de Playstation 1 na tela, e eu pergunto “o que é isso?”’ Foi um caminho sem volta. Eu me apaixonei com todos os sentidos do meu corpo pelo Anime e pelos jogos online. São mundos coloridos, grandes, com personagens lindos e barulhentos, era tudo que eu queria ser e sou hoje hahahaha. O Anime me deu muito conforto para explorar minha identidade queer, eu não gostava das coisas convencionais de meninos como futebol, etc e não podia expressar meu gosto por coisas convencionais de meninas, meus pais eram bastante católicos e tradicionalistas nesse sentido, então o Anime era o meio termo. Eu amava as lutas, as roupas, as armas… era, para mim, um universo queer. Onde qualquer coisa valia independente do gênero, era tudo sobre ser criativo, mágico e inalcançável. O Victor Otaku vive para sempre em mim e, se eu crio o que crio hoje, é por ele, para ele e com ele.

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