Zona Zen #2: O Canto Sagrado D’os Tincoãs

Música #dubrasil

em 8 de março de 2022

O Recôncavo Baiano é uma região geográfica localizada em torno da Baía de Todos os Santos. O termo, que tem como sinônimo apenas recôncavo, na acepção de “extensa e fértil região da Bahia”, deriva da situação geográfica que guarda grande riqueza cultural e histórica. Incalculável é a contribuição desta região para a cultura brasileira e diferentes são os fenômenos musicais que brotaram desta terra fértil. Hoje vou falar de um fenômeno musical chamado Os Tincoãs. 

Recôncavo Baiano

O trio, formado por Dadinho, Heraldo e Erivaldo, iniciou suas atividades em 1960 influenciado pelo Bolero, que já vinha perdendo a sua popularidade, dando espaço a Bossa Nova como preferência da elite branca brasileira. Doze anos após sua formação, o grupo retorna repaginado, com a entrada de Mateus Aleluia e a proposta de uma fusão sonora que, unia a cultura dos terreiros de Umbanda e Candomblé, com as rodas de samba e capoeira e a sofisticação barroca das harmonias vocais. Mergulhados em uma profunda pesquisa e vivência de sua terra, Os Tincoãs levaram as cantigas dos orixás para outro patamar na música popular brasileira.

Em meio a efervecente década de 70, onde o Tropicalismo abalava as estruturas culturais, o trio seguia por uma linha completamente divergente, mas não menos contra cultural para a época. Talvez isso justifique a “baixa” popularidade de um dos grupos mais influentes da nossa música. Aqui, vou falar sobre a última obra lançada pelo trio, o álbum homônimo “Os Tincoãs”, de 1977, meu primeiro contato com o som da banda. Foi amor à primeira vista.

Os Tincoãs – “Os Tincoãs” – 1977

Neste disco o trio, agora formado po Mateus Aleluia, Dadinho e Badu, precorre mais uma vez a mágica fusão de músicas de terreiro com harmonias vocais sofisticadas. O disco abre com a ritmada “Atabaque Chora”, que já mostra de cara toda potência do grupo com arranjos vocais, violão ritmado e percussões afro. “Lamento às Águas” traz uma cantiga quase de ninar, homenageando os orixás. Segue-se “Canto de Dor”, com uma letra atemporal que provoca: “Que mundo é esse? De sofrimento e eterna solidão. Que mundo é esse? Nos sentimos sós na multidão. Ai se Deus cobrasse nosso ar.”, cantam a dor em ritmo de samba.

Os Tincoãs – “Atabaque Chora”

A canção “Romaria”, enfatiza ainda mais o sincretismo e a influência da música espiritual do ocidente, nas harmonias vocais do grupo. “Canto do Boiadeiro” evoca os pontos cantados nos terreiros de Umbanda, num refrão contagiante. Chegamos à faixa “Enterro de Iyalorixá” que, para mim, é o ápice do disco. A música começa com atabaques, em ritmo de barravento, para logo em seguida virar em ritmo de Ijexá, em harmonia perfeita com os vocais, cordas e metais. Não bastasse tamanha sofisticação, quando chega o refrão, a música sobe em ritmo de samba e em seguida temos a declamação sobre a morte da mãe de santo Maria Bibiana do Espírito Santo, em meio a vocalizes hipnóticos e doloridos. Termina de forma tão inusitada como começa. Uma obra prima.

Os Tincoãs – “Enterro de Iyalorixá”

É deste disco o clássico “Cordeiro de Nanã”, talvez a música mais conhecida do grupo. O refrão desta canção, ganhou atenção do grande público, ao ser gravada por João Gilberto, em 1981, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. Em 2014, foi incluída na trilha sonora da novela Senhora do Destino, na voz de Thalma de Freitas.

Mateus Aleluia e Thalma de Freitas – “Cordeiro de Nanã”

O disco encerra com “Acará” e uma mensagem que soa assustadoramente atual: “Deus da natureza…/ Creio que só vós podeis abrandar o coração dos homens. Por que o mais puro dos homens, ainda é pura vaidade. Fala-se em peste, em rumores de guerra. O mundo tornou-se abafado. Dai-nos a resignação do sândalo. Que perfuma o machado que o corta.”

Os Tincoãs

Os Tincoãs é o retrato de um Brasil que fez da miséria e sofrimento, o combustível para sobreviver e escrever sua própria história. De um Brasil que fez da colonização forçada, um combustível para uma das culturas mais ricas e diversificadas do mundo. Do Brasil que produz beleza em meio às condições mais duras da vida.

Os Tincoãs são uma dádiva que merece ser celebrada hoje e sempre.

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Rennan Monteiro, poeta, cantor, compositor. Um nerd apaixonado por histórias e relíquias musicais. Bem vindo a minha Zona Zen!

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